27 de novembro de 2025

Dividindo o espólio da falecida

Por José Carlos Sá

Em meio ao velório, a partlha continuou (Imagem gerada pelo Iago, meu assistente IA Copilot/Microsoft)

O médico ainda não havia examinado o corpo para determinar a causa da morte, e já estávamos fazendo a partilha dos bens da falecida. Nenhuma voz sensata se levantou para alertar sobre a situação: o corpo ainda não havia esfriado, e caímos como piratas sobre o butim.

— Eu fico com isso — dizia um. — Eu com aquilo — gritava o outro.

Como fui o primeiro a chegar, encontrei o corpo e avisei os demais, tive tempo de separar, num cantinho, aquilo que me interessava. Deixei os outros à vontade para se digladiarem na pilhagem.

Só houve um episódio de disputa por um mesmo objeto. Foi a única vez em que houve compostura, quando alguém gritou: — Tem pra todo mundo!

Mas todo esse interesse tinha um motivo: a falecida era acumuladora — não de quinquilharias, mas de coisas boas, úteis, que podiam servir para alguma coisa. Nada ali estava sem propósito. Ela era pragmática: queria ter à mão tudo que fosse necessário, sem precisar buscar em outro lugar.

Quando o pessoal da funerária chegou para preparar o corpo para o sepultamento, alguns ainda remexiam embaixo da cama em busca de algo valioso. Outros esperavam, discretamente, ao lado, que o corpo fosse removido para verificar se havia algo dentro do colchão-box.

Chegou o momento do velório, mas o corpo ficou quase abandonado na sala. A exploração continuava pelos muitos cômodos do casarão, com tudo sendo examinado em minúcias. O jardim — tão bem cuidado — foi revirado, e as plantas em vasos foram retiradas em busca de algo enterrado entre as raízes.

Houve um corre-corre quando alguém encontrou um compartimento atrás da garagem, cuja porta estava parcialmente escondida por um armário de produtos de limpeza. Mas o quartinho não tinha nada além de uma pilha de jornal velho e restos de material de construção: meio saco de cimento endurecido e algumas latas de tinta pela metade, já sem cor.

No enterro, apenas dois carros: o da funerária e o meu. Os demais ficaram de plantão, pois a demolição da casa estava marcada para o mesmo horário em que o corpo seria descido à sepultura.

Está comprovado: da vida, nada se leva.

[Crônica CCLIX/2025]

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