
Meu filho passa o dia no cassino particular dele com os bichos das bets e os cobradores na porta (Ilustração criada por Iago, meu assistente IA / Edição Photoroom/iLoveIMG/PPT-BN JCarlos)
Só hoje atendi três ligações de gente procurando meu filho, além dos que interfonaram da portaria do prédio. São cobradores enviados por quem emprestou dinheiro ao Léo para pagar dívidas.
Não sei onde errei. Eu e o pai dele transferimos toda a boa educação que recebemos dos nossos pais. Sempre o tratamos com carinho — como fizemos com os outros dois filhos. Matriculamos o Léo em boas escolas, garantimos que concluísse a faculdade e esperávamos que, a partir dali, ele voasse do ninho (não para muito longe).
Mas o Léo não se afastou da barra da minha saia. Continua aqui, no mesmo quarto, onde passa o dia fazendo apostas no que chamo de jogo do bicho moderno: Tigrinho, Panda, Coelho, Touro, Rato, Cobra e sei lá mais quantos.
No começo, não me importei. Ele é maior de idade e sabe o que faz da própria existência. Mas o vício começou a interferir na nossa vida.
A mesada que o pai dele ainda deposita deixou de ser suficiente para cobrir as perdas. Léo passou a pegar dinheiro emprestado de um agiota para pagar o outro, e a bola de neve cresceu.
Chamamos o Léo para uma conversa — eu, o pai dele e os irmãos, que não queriam se envolver, mas eu os obriguei a vir. Léo ficou calado, de cabeça baixa. Respondia com acenos. A reunião foi inútil. Lavamos as mãos: dali em diante, ninguém mais ajudaria, nem com empréstimos nem pagando dívidas.
Ele se levantou, fez um aceno de adeus e voltou para o cassino particular no quarto.
Agora recebi uma mensagem no celular (como sabem meu número?) dizendo que vão quebrar as pernas do Léo. E se formos à polícia, eles o matam. Dizem que, para o bem de todos, é melhor pagarmos a dívida.
Não sei o que fazer. Nem a quem recorrer.
E ainda me penitencio, com dor na consciência. Porque, enquanto critico o Léo e sua jogatina sem fim, eu passo horas jogando “Paciência” no celular.
[Crônica CCLVI/2025]
