Li recentemente que, no Brasil, foram registrados 700 milhões de ataques virtuais em um único ano. A lista inclui estelionato aplicado por hackers através de celulares e computadores, quando a vítima distraída clica no link errado.
Outros golpes ainda acontecem pelo convencimento: ligam para o telefone, fingem ser funcionários do banco e alertam sobre uma operação suspeita. Se o incauto acredita, os criminosos acessam seus dados bancários e fazem a festa.
Com tantas modalidades modernas de fraude e o avanço tecnológico que mal conseguimos acompanhar, imaginei que os crimes com contato físico se restringissem ao roubo de celulares — herança das técnicas dos antigos “batedores de carteira”.
Mas há poucos dias soube de um caso em que um idoso foi vítima de um crime anacrônico.
A história de seu Catarino
Catarino, 75 anos recém-completados, “mas rijo e com saúde, graças a Deus”, saiu com a esposa Maria e a cunhada Selene para comprar um liquidificador, aproveitando a Black Friday.
Apesar da insistência dos filhos e netos, Catarino e Maria não deixam o dinheiro no banco. Recebem as aposentadorias na boca do caixa e guardam em casa, cada um no seu esconderijo particular, de onde retiram o necessário para as despesas cotidianas.
Naquele dia, iam os três juntos — as mulheres, uma de cada lado, escoltando Catarino, que levava o dinheiro na carteira. No calçadão, a poucos passos da loja, um homem veio em sentido contrário, forçou a passagem entre o idoso e a cunhada, esbarrou nele e o fez rodopiar.
O choque durou frações de segundo. Só dentro da loja perceberam o roubo.
Refratário às novas tecnologias, seu Catarino acabou vítima de um crime em extinção.
Pura ironia do destino.
[Crônica CCLV/2025]

