
Eu sentia uma presença cobrativa na cabine do caminhão (Imagem criada pelo Iago meu assistente IA Copilot/Microsoft / Edição BN/PPT JCarlos)
Eu estava levando uma carga para uma cidade ao norte de Santarém, no Pará, quando soube pelo WhatsApp que o Chico tinha morrido. Éramos amigos de infância, estudamos nas mesmas escolas até os 14 anos, quando abandonamos os livros. Depois seguimos caminhos diferentes: eu virei caminhoneiro, ele ficou cuidando do armazém dos pais.
No retorno do Pará, peguei um frete para o Nordeste. Pelas minhas contas, era o sétimo dia da morte do Chico. Resolvi parar num lugarejo onde a igreja estava aberta. Entrei e pedi ao padre que incluísse o nome do Chico nas intenções da missa. Ao ditar, percebi que era a primeira vez que dizia o nome completo do meu amigo: Francisco Salustiano Bezerra. Para mim, sempre fora apenas Chico.
Ao final da cerimônia, o padre me chamou ao altar e entregou uma vela. Disse que era uma lembrança da paróquia para parentes e amigos dos falecidos. Eu não sabia o que fazer com aquilo. Notando meu embaraço, explicou que podia guardá-la ou acendê-la em oração, em noites de tempestade, ou simplesmente como uma vela comum. Respondi que a levaria para colocar no túmulo do Chico. O padre me abençoou e voltei à estrada.
Um ano depois, passando novamente pela mesma cidade, lembrei que nunca cumpri o que prometi: levar a vela ao cemitério. Na verdade, eu nem sequer fui visitar o túmulo do Chico.
Pode ter sido coincidência ou coisa da minha cabeça, mas a partir daquele dia comecei a sentir a presença de alguém na cabine do caminhão. Achei que fosse o cansaço das viagens seguidas que me fazia ouvir um murmúrio interminável dizendo alguma coisa que eu entendia como “quero minha vela, quero minha vela, quero minha vela, quero minha vela”… Nessas ocasiões eu aumentava o som do rádio ou cantava alguma música o mais alto que eu podia.
À noite, olhando para frente, via pelo canto do olho uma pessoa sentada na cadeira do carona. Virava a cabeça e encontrava apenas o vazio.
Foi numa dessas olhadas que perdi o controle da direção. O caminhão despencou num barranco. Fui encontrado três dias depois e levado ao hospital. Segundo o boletim de ocorrências, eu repetia sem parar uma única frase:
“Entreguem a vela para o Chico, pelo amor de Deus!”
[Crônica CCLI/2025]
