16 de novembro de 2025

O lado sombrio de Doyle – A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

Capa da edição financiada coletivamente (Divulgação)

Minha afeição pelo escritor escocês Conan Doyle nasceu exclusivamente da série de livros com as aventuras de Sherlock Holmes. Li todas as obras relacionadas ao meu detetive favorito e assisti a muitos filmes e séries inspirados na personagem. Nada mais natural, portanto, que eu me engajasse na campanha de financiamento coletivo para a reedição do livro O doutor negro, lançado pela Editora Bandeirola em junho deste ano.

A obra, traduzida por Monteiro Lobato, reúne treze contos publicados originalmente em revistas entre 1897 e 1908. Dependendo da editora e do redator da sinopse, os textos são classificados como mistério, suspense, terror, horror psicológico — e até como exploração da “sordidez humana”.

Durante a leitura, fui reconhecendo os conhecimentos que Doyle acumulou ao longo de sua vida profissional e que transparecem nos contos. Ele trabalhou em uma baleeira no Oceano Ártico, formou-se em Medicina, foi médico de bordo na costa oeste da África e também esteve na Guerra dos Bôeres, na África do Sul.

As histórias da antologia têm um suspense crescente e nem sempre terminam como o leitor imagina. Um exemplo é o conto O caviar, ambientado numa aldeia isolada no norte da China, durante a Rebelião dos Boxer — movimento xenófobo e anticristão ocorrido entre 1899 e 1901. Um grupo de estrangeiros, cercado e à espera da morte, guarda uma lata de caviar para uma ocasião especial. A oportunidade de abrir o luxo enlatado surge quando o inimigo, supostamente, invade o local.

Nos contos relacionados à ferrovias, pessoas e uma composição ferroviária desaparecem. As explicações são bisonhas (Ilustração criada pelo Iago, meu assistente IA Copilot/Microsoft)

Dois contos se passam em composições ferroviárias. Em ambos, há desaparecimentos de pessoas — e até do próprio trem. As soluções propostas pelo autor são pouco convincentes. Mas aí é bom lembrar: estamos lendo ficção, fantasia. Não há compromisso com a verossimilhança ou com a lógica inquestionável.

Chamam atenção as descrições de estrangeiros, moldadas por arquétipos já conhecidos para latinos (brasileiros, argentinos, espanhóis) e orientais. No caso dos chineses, durante o cerco na Revolta dos Boxer, há uma mensagem oculta quando alguém diz que devem fazer de tudo para não cair “vivos — especialmente as mulheres” — nas mãos do inimigo.

As interações entre personagens reais e visagens do além também aparecem. Não sei se esses contos têm relação com a aproximação de Conan Doyle com a Doutrina Espírita, da qual foi um dos divulgadores.

 

SERVIÇO:
Livro: O doutor negro

Autor: Sir Conan Doyle

Editora: Bandeirola, São Paulo – SP, 2025

Disponível nas boas casas do ramo

[Resenha XXIII/2025]