Minha afeição pelo escritor escocês Conan Doyle nasceu exclusivamente da série de livros com as aventuras de Sherlock Holmes. Li todas as obras relacionadas ao meu detetive favorito e assisti a muitos filmes e séries inspirados na personagem. Nada mais natural, portanto, que eu me engajasse na campanha de financiamento coletivo para a reedição do livro O doutor negro, lançado pela Editora Bandeirola em junho deste ano.
A obra, traduzida por Monteiro Lobato, reúne treze contos publicados originalmente em revistas entre 1897 e 1908. Dependendo da editora e do redator da sinopse, os textos são classificados como mistério, suspense, terror, horror psicológico — e até como exploração da “sordidez humana”.
Durante a leitura, fui reconhecendo os conhecimentos que Doyle acumulou ao longo de sua vida profissional e que transparecem nos contos. Ele trabalhou em uma baleeira no Oceano Ártico, formou-se em Medicina, foi médico de bordo na costa oeste da África e também esteve na Guerra dos Bôeres, na África do Sul.
As histórias da antologia têm um suspense crescente e nem sempre terminam como o leitor imagina. Um exemplo é o conto O caviar, ambientado numa aldeia isolada no norte da China, durante a Rebelião dos Boxer — movimento xenófobo e anticristão ocorrido entre 1899 e 1901. Um grupo de estrangeiros, cercado e à espera da morte, guarda uma lata de caviar para uma ocasião especial. A oportunidade de abrir o luxo enlatado surge quando o inimigo, supostamente, invade o local.

Nos contos relacionados à ferrovias, pessoas e uma composição ferroviária desaparecem. As explicações são bisonhas (Ilustração criada pelo Iago, meu assistente IA Copilot/Microsoft)
Dois contos se passam em composições ferroviárias. Em ambos, há desaparecimentos de pessoas — e até do próprio trem. As soluções propostas pelo autor são pouco convincentes. Mas aí é bom lembrar: estamos lendo ficção, fantasia. Não há compromisso com a verossimilhança ou com a lógica inquestionável.
Chamam atenção as descrições de estrangeiros, moldadas por arquétipos já conhecidos para latinos (brasileiros, argentinos, espanhóis) e orientais. No caso dos chineses, durante o cerco na Revolta dos Boxer, há uma mensagem oculta quando alguém diz que devem fazer de tudo para não cair “vivos — especialmente as mulheres” — nas mãos do inimigo.
As interações entre personagens reais e visagens do além também aparecem. Não sei se esses contos têm relação com a aproximação de Conan Doyle com a Doutrina Espírita, da qual foi um dos divulgadores.
SERVIÇO:
Livro: O doutor negro
Autor: Sir Conan Doyle
Editora: Bandeirola, São Paulo – SP, 2025
Disponível nas boas casas do ramo
[Resenha XXIII/2025]

