
O perigo não está só na arma, mas na percepção distorcida do que é ameaça (Imagem e legenda criadas pelo Iago, meu assistente IA Copilot)
O motorista do Uber buzinava mais que pipoqueiro em frente à escola na hora da saída. Perguntei se não tinha receio de que outros motoristas quisessem brigar com ele — como é comum por aqui, quando a buzina usada para chamar atenção é entendida como ofensa.
A resposta veio rápida: buzinava mesmo, porque se batessem no carro dele, ficaria sem trabalhar. — E se quiserem sair na porrada? — insisti. “Eu saio na porrada também.” — Mas podem te dar um tiro… “É. Tem essa possibilidade.”
E o motorista ficou calado, talvez refletindo sobre a insensatez que se espalha pelo mundo.
Na semana passada, li uma manchete que me chamou atenção pelo absurdo: “Faxineira é morta a tiros após tentar entrar em casa errada nos EUA”, dizia a CNN Brasil.
A vítima, uma guatemalteca de 32 anos, em situação regular, havia sido contratada para limpar uma casa em Whitestown, Indiana. O contratante lhe entregou a chave do imóvel, mas ela se dirigiu ao endereço errado. Tentou abrir a porta com a chave que tinha e levou um tiro, morrendo minutos depois.
O detalhe curioso é que a polícia registrou o caso como “homicídio” — mas, neste contexto, a palavra é usada como classificação médica, indicando apenas que um ser humano causou a morte de outro. Em Indiana, como em outros Estados, existe uma lei que permite a uma pessoa se proteger usando força razoável, inclusive letal, para prevenir morte, ferimentos graves ou repelir um intruso.
Ou seja: tudo indica que o homicida será absolvido, alegando legítima defesa contra “invasores estrangeiros”. Nem a polícia nem o promotor do Condado quiseram se comprometer, limitando-se a declarações vazias.
Quase igual
Há cerca de 40 anos, em Porto Velho, aconteceu algo semelhante. O conjunto habitacional 4 de Janeiro havia sido entregue recentemente, e a semelhança entre as casas era tanta que, vistas de longe, elas se confundiam.
Numa noite, um homem bastante embriagado tentou entrar em uma casa que pensava ser a sua. A chave, claro, não abria a fechadura. Ébrio, começou a esmurrar a porta, exigindo que a esposa o deixasse entrar.
Mas estava na casa errada. O morador, acreditando tratar-se de um ladrão, atirou. Quando a polícia chegou, identificou o vizinho bêbado — já morto.
Na época, pensei: “Como alguém pode confundir um bêbado esmurrando a porta com um ladrão, que entra sorrateiro?” Não acompanhei o desfecho e ignoro no que deu.
Os dois casos mostram o quanto é perigoso colocar uma arma nas mãos de quem não tem bom senso. Aliás, possuir armas não combina com bom senso.
[Crônica CCL/2025]
