
O homem e Deus – Qualquer semelhança é mera projeção antropológica (Imagem criada por Iago, meu assessor IA Copilot)
Numa noite em que nós, recrutas do serviço militar da Turma de 1976, aguardávamos a chamada das 21 horas, meu colega “17” (recruta Bueno) e eu conversávamos sobre generalidades, quando ele, olhando para o céu estrelado, soltou: — Sá, você já pensou que podemos ser um átomo de uma célula de um ser superior?
Eu, que não sou afeito a elucubrações mais profundas, apenas respondi que não. Mas fiquei pensando no assunto.
Esse breve diálogo, perdido no tempo — ocorrido há quase 50 anos — aflorou à memória enquanto eu lia A minha visão do mundo, do médico pediatra aposentado Carlos Alberto Brasil Fernandes. O autor comenta sobre nossa existência na Terra sob diversos aspectos.
Mas o que têm em comum o dr. Brasil e o Bueno, meu colega? A figura de Deus. Enquanto o “17” imagina que somos uma partícula de um Ser Superior, o escritor se aproxima e se distancia do “Deus” ocidental, adotado pelas religiões cristãs católicas e protestantes.
O livro aborda temas variados: “A burrice humana”, “A inquisição”, “O carnaval”, “Os alienígenas”, “O marxismo”, entre outros. No entanto, a discussão sobre “o que é Deus” se sobrepõe a todas essas inquietações do autor, como nesta passagem: “O espírito de Deus não pode ser originário da matéria do espaço-tempo, provavelmente não tem imagem e muito menos semelhança com nada, pois é um ser imaginável, portanto impossível de ser retratado, logo, longe das leis do universo, daí fora do mesmo.”
Olha a tese do Bueno aí.
A influência do filósofo alemão Ludwig Feuerbach permeia a obra, especialmente na interpretação bíblica de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26-27). O dr. Brasil escreve: “Surge daí o conceito de antropologia invertida: invertendo a lógica do argumento religioso, de criatura o homem passa a ser o criador.”
Mais adiante, ele reforça: “(…) a ordem foi invertida, o homem não mais teria sido criado por Deus à sua imagem e semelhança, e sim, o homem criou Deus, isto sim, à sua imagem e semelhança.”
Certo?
Outra passagem que me chamou atenção trata da fé e dos santos da Igreja Católica. O autor aponta uma contradição (sou católico e devoto de alguns santos):
“O Catolicismo, com o culto aos santos, põe os mesmos com o poder de interferir nos desígnios do Criador, o que para o bom senso é inadmissível — para um Ser, antes de tudo, perfeito, ser preterido por sua própria criação.”
Li o livro como quem assiste a uma série de palestras sobre temas diversos, mas com um pano de fundo comum: a preocupação do autor com a existência humana e o mistério do que vem depois da morte — já que ninguém tem certeza absoluta sobre isso.
E, afinal, não sei se sou uma projeção de Deus ou se Deus é uma coisa que inventaram para me controlar.
Serviço:
- Livro: A minha Visão do Mundo
- Autor: Carlos Alberto Brasil Fernandes
- Editora: Autopublicação, Rio de Janeiro – RJ, 2025
- Disponível na Amazon
[Resenha XXII/2025]
