12 de novembro de 2025

Secando o capital

Por José Carlos Sá

O suspeito secava as notas “lavadas” em um varal de chão (Foto PCSC/Reprodução)

Às vezes eu sou literal e levo as coisas ao pé da letra. Já fui chamado de radical por isso.

Um exemplo da infância: quando minha mãe disse que iria conseguir uma “bolsa de estudos” para mim, eu pensei — para que eu queira uma bolsa nova, se minha pasta de couro ainda está boa e dá para levar cadernos, livros e estojo? Isso foi na Era Pré-Mochilas.

Essa lembrança me veio ao ler duas matérias jornalísticas diferentes, mas que apontam para o mesmo tema: o “branqueamento de capitais”.

O termo “lavagem de dinheiro” é comum no noticiário político-policial e ganhou destaque na operação Lava-Jato, cujo nome faz referência a um posto de lavagem de automóveis em Brasília. No âmbito jurídico, significa “disfarçar a origem de dinheiro obtido de atividades ilegais para que pareça legítimo”. Os criminosos usam várias estratégias: compra de imóveis, criação de gado, postos de gasolina, distribuidoras de bebidas, revenda de carros usados, entre outras tendências específicas pelo COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).

Na primeira matéria, um homem se tornou suspeito ao depositar R$ 237 mil em notas de pequeno valor. O que chamou a atenção não foi apenas o montante em espécie, mas o estado das cédulas: úmidos, mofadas e com mau cheiro. Segundo o inquérito, isso indicava “acondicionamento inadequado por certo tempo, indicando ilicitude da origem”.

No segundo caso, o suspeito foi ainda mais literal do que eu: a Polícia Civil de Santa Catarina encontrou cerca de R$ 400 mil em espécie, parte das notas “secando” em um varal de chão.

A conclusão é simples: dinheiro limpo é aquele adquirido legalmente, com o suor do trabalho. Os obtidos por falcatruas, guardados debaixo da cama, acaba úmido, mofado e fedido. Nesse caso, é preciso lavar, secar e “passar” para frente.

E tudo vira caso de polícia e dá cadeia. Mas poucas cumprem a pena — o que é uma pena, falando literalmente .

[Crônica CCXLVIII/2025]

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COAF Lava-Jato Lavagem de dinheiro Polícia Civil de Santa Catarina Santa Catarina 

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