Quando fui prestar o serviço militar em 1976, na Base Aérea de Belo Horizonte, a última turma do Curso de Formação de Cabos (CFC) do III Comando Aéreo Regional da Aeronáutica — RJ, MG e ES — concluía o período de estudos. Até aquela data, o CFC do III COMAR era realizado em BH (para completar as abreviações).
Por um “infortúnio da sorte”, um dos alunos daquela turma sofreu um AVC durante uma aula de educação física. O soldado teve o mau súbito bem ao lado do Paiol de Munições, numa área entre o campo de futebol da Base e a pista do Aeroporto da Pampulha.
Querendo nos assustar, os soldados antigos diziam que o aluno, falecido meses antes, estava aparecendo para as sentinelas escaladas para fazer a guarda noturna da casinha do paiol. Quando nós, os recrutas, passamos a concorrer à escala de serviço armado (nas primeiras semanas só cuidávamos da vigilância do alojamento onde dormíamos, “armados” com um cassetete), fazíamos de tudo para evitar o “posto assombrado”.
Um dos colegas — cujo nome e número já não me recordo — fazia qualquer negócio para não tirar serviço no paiol. Trocava com outro recruta, inventava desculpas, tentava convencer o encarregado a escalá-lo em outro posto. Soube que ele até se oferecia para cobrir serviços na “escala vermelha” (finais de semana) só para escapar da assombração do finado aluno.
Não sei se foi predestinação ou obra do acaso. Um dia, o medroso não conseguiu ninguém para trocar de posto, nem convenceu o encarregado das escalas. Resultado: ficou no terceiro turno, como sentinela no Posto do Paiol entre meia-noite e duas da manhã.
Para quem é medroso — e eu me incluo nesse rol — não há horário pior para estar sozinho num lugar dito mal-assombrado. A meia-noite ocupa um lugar de destaque no imaginário popular, representando um momento de transição: tanto pode ser o recomeço de um novo dia como também estar associado ao sobrenatural.
Sem ter o que fazer e querendo dar verossimilhança à lenda recém-criada da aparição da alma penada, dois recrutas da mesma equipe de serviço — que deveriam estar descansando — foram até a beira do campo de futebol, rastejaram até próximo ao paiol e começaram a jogar pedrinhas no teto da construção.
O sentinela não quis saber se quem estava tentando amedrontá-lo era vivo ou morto. Engatilhou o fuzil e avisou: — Eu não sei quem está aí, mas eu vou atirar, seu fantasma filho da *uta!
Os dois aprendizes de visagens viram que a brincadeira ia virar coisa séria e voltaram correndo para o alojamento. Na manhã seguinte, a vítima relatou o ocorrido. Como os “fantasmas” não se acusaram, todos nós ficamos detidos no quartel no final de semana seguinte. Mesmo sabendo quem foi, ninguém denunciou os autores da molecagem que quase virou tragédia.
Lembrei desse causo para contar hoje, dia do Saci Pererê e das bruxas, locais e importadas.
[Crônica CCXLI/2025]

