
O carrinho de supermercado trafega entre o céu e o inferno em uma linha muito tênue (Imagem gerada e editada por IA Copilot/Fotor)
Todos os dias ligo o computador e vejo os e-mails dos jornais que assino. Dependendo do título, abro a notícia para ler na hora ou deixo para outro momento. Foi o caso deste assunto que vou comentar — e que já dei a dica no título.
Ao “bater o olho” na manchete, falei em voz alta: — Uai? Não é mais pecado comer enlatado?
A Folha publicou, na editoria Equilíbrio, texto assinado por Thais Szegö com o seguinte título: “Alimentos enlatados podem ser aliados da saúde, mas é preciso saber escolher” E no subtítulo: “Produtos em lata são práticos e ajudam a manter uma dieta equilibrada.”
Entendo cada dia menos.
Até bem pouco tempo, os alimentos enlatados eram demonizados, e seus consumidores condenados — inapelavelmente — a serem consumidos no mármore frio do inferno.
Por ter internalizado essa ameaça de excomunhão alimentar, estranhei quando vi o texto assinado por uma jornalista que tem no currículo “mais de 27 anos de experiência, especializada nas áreas de saúde, nutrição, fitness, comportamento e beleza”. Ou seja, sabe do que está escrevendo.
A matéria afirma — com base em entrevistas com uma nutricionista e uma pesquisadora da Unicamp — que “esses alimentos ficam protegidos da luz e do oxigênio, o que faz com que tenham uma vida útil maior. É o caso, por exemplo, do milho e da sardinha em lata. Já as leguminosas — como grão-de-bico, ervilha e feijão — têm outras vantagens na versão enlatada”.
Claro, são feitas ressalvas, como não poderia deixar de ser: “É importante evitar aqueles com adição de itens como óleos, sal e açúcar, que podem estar, inclusive, em caldas e molhos”, disse a dietóloga.
Quase morri

O quitute era uma iguaria que pai comprava e fritava para nós. Depois havia a disputa de quem ficaria com a chavinha… (Foto internet/Reprodução)
Na casa da nossa família, de vez em quando, pai comprava quitute (Kitut), que ele fritava para nós e, pessoalmente, comia cru. Já casado, comprei carne em lata algumas vezes, mas para servir no formato de patê — amassada com o garfo e misturada à maionese e cebola picadinha.
Em pelo menos dois períodos da minha vida em que morei só e tinha que fazer minhas refeições em casa, fui um grande consumidor de enlatados: carne em conserva, feijoada, almôndegas, salsichas Wilson e sardinhas em lata com molho de tomate.
Um episódio que ficou marcado — mas não impediu que eu continuasse a consumir enlatados por mais um bom tempo — foi uma infecção intestinal que peguei ao comer alimento contaminado com salmonella.
Fui morar em Porto Velho em 1986, e a falta de energia elétrica era uma coisa rotineira. Tão corriqueira que me esqueci dessa realidade. Fui em casa no intervalo do almoço e preparei uma macarronada com sardinha ao molho de tomate. Depois da refeição, guardei a sobra na geladeira para comer no jantar.
Resumindo: passei mal a noite toda. Na manhã seguinte, o colega que me buscava em casa me encontrou depauperado. Mal tive forças para abrir a porta e pedir que me levasse ao hospital.
Fui medicado com soro e antibióticos, mas não aprendi a lição — e nem deixei de consumir enlatados. Até o dia em que alguém me convenceu de que eu estava ingerindo veneno puro. Parei com os enlatados, mas continuei a consumir outras coisas prejudiciais à saúde.
Agora vem uma jornalista especializada em saúde, nutrição e fitness, uma pesquisadora da Unicamp e uma nutricionista dizerem que o capeta não é tão feio como o pintam.
[Crônica CCXXXVI/2025]
