
Ao conferir quantos palitos havia em uma caixa de fósforo, descobriu que estava sendo enganado (Imagem gerada por IA Firefly/Adobe)
Desde há muito tempo tenho consciência dos direitos do consumidor e de que merecemos respeito dos fornecedores de produtos e serviços. Mas, na prática, quase nunca exerço essas garantias — mesmo estando hoje muito bem descritas em legislação própria.
Acompanhei, nos anos 1970, pela imprensa, a luta do pioneiro dos direitos do consumidor, o norte-americano Ralph Nader, em sua batalha inglória contra a indústria automobilística deles, exigindo mais itens de segurança nos veículos.
Ele mostrava que estávamos sendo lesados em praticamente tudo o que comprávamos. As caixas de fósforo não tinham a quantidade de palitos que anunciavam; o papel higiênico não tinha a metragem impressa na embalagem; e muitos outros produtos enganavam — ou melhor, roubavam — o comprador. O industrial lucrava sobre a diferença entre o que dizia que vendia e o que realmente entregava.

No supermercado é preciso ter um olho na etiqueta e outro no que foi registrado no caixa (Imagem gerada por IA Copilot)
No entanto, reclamei poucas vezes. Eu via que estava sendo enganado e deixava pra lá. Já a Marcela, não. Ela tem um olho no preço da prateleira e outro no valor que aparece no monitor do caixa. Se os números são diferentes, a confusão está armada.
Minhas reclamações

A reparação feita pela Unilever. Espero que desta vez eu consiga usar o desodorante até o fim (Fotos Marcela Ximenes / Montagem JCarlos)
As reclamações que fiz são tão poucas que consigo citá-las de cor. Hoje, por exemplo, recebi dois frascos de desodorante depois de reclamar na Unilever. O que eu estava usando parou de funcionar com o frasco ainda pela metade. O mesmo aconteceu com o JP. Mesma marca, mesmo problema.
Fiz contato e me sugeriram várias manobras de ressurreição dos frascos, mas nenhuma funcionou. Pediram fotos dos lotes e dos códigos de barra e, agora, um mês depois, recebi pelos correios dois novos tubos. Vamos ver se funcionam.
Antes disso, tive um problema com o aplicativo de transportes 99. Esqueci o celular no carro. O motorista encontrou o aparelho, falou comigo por ele, mas não devolveu. Para conseguir o reembolso, tive que procurar a justiça.
A Marcela tem mais casos para contar do que eu. Teve o repelente que atraía insetos e o feijão preto que descorou.
Hoje essas histórias fazem parte do nosso folclore doméstico. Mas, na hora, o aborrecimento foi grande.
Vivemos, infelizmente, num tempo em que não ser enganado é a exceção.
[Crônica CCXXXV/2025]
