A primeira vez que ouvi falar do sacrifício de gatos para a confecção de instrumentos de percussão — tamborins e cuícas — foi na música Negro Gato, gravada por Roberto Carlos em 1966, no auge da Jovem Guarda. Naquela minha tenra idade (10 anos), eu atribuía o verso “(…) Um dia lá no morro, pobre de mim / Queriam minha pele para tamborim / Apavorado desapareci no mato (…)” a um exagero do compositor.
Muito mais tarde, ouvi a mesma história em tom de piada: caçavam gatos para usar a carne em churrasquinhos e vender as peles para escolas de samba de Belo Horizonte. Não acreditava — por confiar na agilidade dos gatinhos, que só se deixam pegar se quiserem. Pensava eu.
Hoje resolvi pesquisar o assunto, preparando-me para escrever uma crônica sobre outra circunstância envolvendo gatos. A consulta confirmou: o couro de gato já foi usado na confecção de tamborins e cuícas, por suas características de “elasticidade e timbre agudo”, ideais “para alcançar o som certo”.
As aspas vêm de entrevistas concedidas por sambistas como Cartola, Carlos Cachaça e Waldomiro Tomé Pimenta — este também historiador.
Comércio de sangue
No começo do mês, vi uma matéria na Folha que me chamou atenção — e por isso a guardei.
O título anunciava: “Polícia prende 3 por suspeita de esquema ilegal de venda de sangue de gatos em SP”. Claro que cliquei. Fiquei abismado com o fato ocorrido em Monte Alto, interior de São Paulo — mas que pode estar acontecendo em outros lugares.
Um anúncio circulou em grupos de WhatsApp oferecendo R$ 50 para quem levasse o gato para fazer “doação” de sangue. Uma mulher fez contato com a anunciante, gravou a conversa e chamou a polícia.
Na residência usada para coleta, foi encontrado um gato extremamente debilitado, descrito no B. O. como “apresentando fortes sinais de anemia e prostração, possivelmente em decorrência de retirada de sangue de forma inadequada”. Outros seis gatos estavam desacordados no local — talvez esperando a vez para doarem sangue involuntariamente.
A polícia deteve cinco pessoas; três ficaram presas. O sangue coletado dos gatos montealtenses era levado para uma clínica veterinária em São José do Rio Preto. Apurou-se que os envolvidos recebiam entre cem e trezentos reais. O sangue seria usado em transfusões para animais acidentados ou anêmicos.
Infelizmente, a apuração jornalística não teve continuidade. A notícia se encerrou na descoberta e prisão dos implicados. Não se falou se a clínica que recebia as “doações” sabia como o sangue era captado.
Seja como “doadores” de pele, carne ou sangue, a coisa não está nada boa para os Felis catus…
[Crônica CCXXXIII/2025]


