17 de outubro de 2025

Olhar que vira pauta – 20 anos de Banzeiros

Por José Carlos Sá

Capa de uma das edições do romance Kim, escrito em 1901, que me ensinou a observar o mundo à minha volta (Reprodução)

Nessa trajetória escrevendo o Banzeiros, exercitei bastante a minha capacidade de observação — prestando atenção ao que me cerca, ao que é dito e, principalmente, aos silêncios.

Essa prática veio de longe, muito antes de eu pensar em ser jornalista. Ainda escoteiro, li Kim, do britânico nascido na Índia, Rudyard Kipling. O romance conta a história de um órfão, filho de um casal católico irlandês, criado por uma mulher indiana, que acaba sendo treinado pelo serviço secreto inglês e faz amizade com um Lama tibetano.

Foi justamente nesse processo de treinamento — tanto pelo serviço secreto quanto pelo Lama — que aprendi a observar com atenção o mundo à minha volta. A captar os detalhes “fora do lugar”, seja numa paisagem, seja num texto.

Mais tarde, como repórter da TV Alterosa, em Belo Horizonte, e do jornal Alto Madeira, em Porto Velho, esse olhar atento me ajudava a sugerir pautas ou a enriquecer os assuntos que eu cobria.

A editoria “Cenas da Cidade”, que mantenho no Banzeiros, nasceu no Alto Madeira. O repórter-fotográfico Damião Cavalcante e eu saíamos da redação com a pauta “Hoje é por sua conta, se vira” — e voltávamos com matérias surgidas dessas andanças e observações.

Um post despretensioso sobre um muro que chamou minha atenção em um passeio pela cidade (Reprodução Banzeiros)

No Banzeiros, sem compromisso formal, eu comentava algo que via na rua ou ouvia no ônibus. Dias depois, aquele tema virava matéria de jornal ou de TV. Isso me deixava ao mesmo tempo assustado e orgulhoso. Orgulhoso por ter levantado um assunto que rendeu reportagem; assustado por perceber que havia gente lendo e levando a sério o que eu escrevia.

A história do artista das máscaras de cimento teve chamada na capa do jornal ND (Reprodução Banzeiros)

Mas a surpresa maior veio quando o editor do jornal ND, de Florianópolis, me procurou para transformar um post do Banzeiros em matéria impressa. Era sobre um artesão que criava figuras a partir de máscaras de carnaval — vi o trabalho dele numa rua, enquanto passeava com a Marcela.

Fiz a matéria, entrevistei o artista e ainda ganhei uma graninha. Uma pauta gerada a partir do que o Kim — aquele lá da infância — me ensinou.

E viva o Banzeiros!

[Crônica CCXXVII/2025]