
O livro narra a incrível história do cônsul sueco Lorentz (Lourenço) Westin contada por Júlio Olivar (Reprodução)
Acabo de emergir de um mergulho profundo, cujas correntes me levaram do Brasil Colonial até tempos bem próximos dos dias de hoje. Ainda estou na câmara hiperbárica, me recuperando da intensa exposição a personagens que contribuíram para a formação do país — figuras quase anônimas, cujos nomes aparecem em letras miúdas, escondidos em notas de rodapé.
O mestre de mergulho que me conduziu nessa aventura foi o jornalista e escritor Júlio Olivar, que já fora meu instrutor em outras jornadas de descobertas. O autor tem essa característica singular: revelar fatos e personagens que foram relevantes para seus contemporâneos, mas que não chegaram ao nosso conhecimento por diversas razões.
Para ilustrar o que afirmo, lembro do trabalho quase arqueológico que realizou ao escrever sobre a cidade de Santo Antônio do Alto Madeira — cuja área foi, à época, a maior do mundo, e que foi extinta deixando pouquíssimas marcas físicas de sua existência.
Júlio também nos apresentou a cientista (ornitóloga) alemã Emilie Snethlage, que morreu em Porto Velho em 1929; ao poeta Vespasiano Ramos — homenageado com o nome de uma rua em Porto Velho, mas completamente desconhecido; e agora, ao incrível cônsul Lourenço Westin.
Um diplomata indiscreto
A história do cônsul Lourenço Westin é fascinante. Ele representou a Suécia e a Noruega junto a Portugal, quando a sede da Coroa se transferiu para o Brasil. Depois, continuou sua atuação no Império Brasileiro sob D. Pedro I, D. Pedro II e, entre eles, durante o período regencial.

O padre Diogo Feijó (foto) e Westin foram amigos durante toda a vida (Retrato de autor desconhecido)
Westin não se ateve ao protocolo que rege o mundo diplomático. Cuidou de negócios próprios e da família, envolveu-se nos bastidores da política e chegou a ser preso por financiar uma revolução fracassada, ao ajudar seu amigo padre Diogo Antônio Feijó — que foi Regente do Império, ministro e senador.
O cônsul passou os últimos anos de vida no sul de Minas Gerais, em um lugar próximo à cidade natal de Júlio Olivar, Poço Fundo. O autor se valeu das lendas que ouviu na infância sobre o cônsul para investigar e separar mito de realidade.
Algumas passagens chamam atenção pelo inusitado. Entre as lendas, havia a de que o sueco, por ser reservado, teria uma máquina de fabricar dinheiro. Por isso, desconfiava de quem o visitava. Para evitar surpresas, dizem que usava uma luneta para identificar quem se aproximava da propriedade e, dependendo da situação, se escondia em um compartimento secreto no subsolo da sede da fazenda.

O autor do livro, Júlio Olivar, ao lado da cruz de ferro sobre o túmulo de Lourenço Westin (Foto Rodrigo Martins/Acervo Júlio Olivar)
Outro fato pitoresco está nas instruções minuciosas deixadas em testamento sobre como e onde deveria ser enterrado. Transcrevo trechos: “(…) Desejo ser sepultado no alto do morro defronte do rancho que habito na Fazenda do Jardim, no lugar que mostrarei a meu dito sobrinho e que eu tinha desejo de edificar uma capela (…)”. Mais adiante, especifica uma exigência macabra: “(…) que o meu corpo seja depositado em uma caixa de pinho à moda da Suécia sem se pregar a tampa até exalar mau cheiro, e então [seja] enterrado em uma cova que tenha oito palmos de profundidade”.

A “cruz de ferro” foi vandalizada recentemente. Levaram um de seus braços (Foto cedida por Júlio Olivar)
Westin também exigiu que rezassem por sua alma apenas um Padre Nosso e que fosse fincada uma cruz de ferro fundido sobre o túmulo, com o seguinte epitáfio: “Aqui jaz Lourenço Westin, nascido em Estocolmo aos vinte e dois dias de fevereiro de 1787, faleceu aos [em branco], foi o primeiro cônsul da Suécia e Noruega no Brasil”.
Ainda há representantes da família Westin no Brasil, especialmente em Minas Gerais, mas poucos conheciam a verdadeira história de seu antepassado — situação que deve mudar com o lançamento do livro O Cônsul – A saga do sueco Lourenço Westin no Brasil do século XIX, de autoria de Júlio Olivar.
Recomendo.
SERVIÇO
Livro: O Cônsul – A saga do sueco Lourenço Westin no Brasil do século XIX
Autor: Júlio Olivar
Editora: Temática Editora e Cursos, Porto Velho (RO), 2025
Vendas com o autor: instagram.com/julio_olivar
[Resenha XXI/2025]



