Os leitores destas mal-traçadas linhas já estão acostumados aos comentários que faço sobre crendices — minhas ou alheias. Já escrevi a respeito das “sextas-feiras-13-de-agosto”, sobre cruzar o caminho com um gato preto, passar sob uma escada, deixar o chinelo com a sola virada para cima (é fatal para a mãe do dono da sandália!) ou levantar da cama e colocar o pé esquerdo no chão.
Já contei aqui que minha mãe pediu a uma cigana que colocasse cartas para prever o meu futuro. A zíngara previu que eu me casaria cedo, usaria farda e seria rico. Duas das três previsões já se concretizaram.
Mas voltando ao mundo (ir)real…
Cresci ouvindo, acreditando e praticando superstições: não olhar para o espelho à meia-noite, não responder quando ouço meu nome ser chamado sem ninguém (visível) por perto, ou colocar a mão que coça no bolso — afinal, coceira na palma da mão é sinal de dinheiro chegando, e aí você tem que ajudar o dinheiro a encontrar o caminho da “algibeira”.
Dias atrás, furei um dos dedos no araminho de fechar o saco de pão. Depois de dizer “ai!”, soltei em voz alta: “Oba, vou ter um gosto!”
Marcela, que estava compenetrada nos estudos, levantou os olhos interrogadores e perguntou:
— Oi? O que você falou?
— Quando eu era pequeno, aprendi que machucar os dedos tem significados diferentes. Furei o polegar, então vou ter um gosto, uma notícia boa… Você não conhece essa sabedoria popular?
— Não…
— É assim, ó… — E fui apontando os dedos e dizendo as consequências de machucar cada um deles: Polegar: gosto; Indicador: desgosto; Médio: convite; Anelar: carta; e Mínimo: casamento
— E é, é?
[Crônica CCXXII/2025]
