07 de outubro de 2025

O sequestro que não foi

Por José Carlos Sá

Onde será que o Netinho se meteu? (Imagem gerada por IA GPT40)

Seu Carlos, já bastante idoso e com dificuldades para enxergar e se locomover, precisava ir ao médico. O menino Netinho foi escalado para acompanhá-lo. O táxi chegou, seu Carlos sentou-se ao lado do motorista e Netinho no banco de trás.

Enquanto a Esposa lembrava ao seu Carlos o que ele deveria falar com o médico, outro membro da família retirou o menino do carro — e o táxi partiu para o centro da cidade. O motorista logo puxou conversa sobre o tempo, xingou o prefeito e os políticos em geral, e o passageiro se distraiu com a parolice.

Chegando à clínica, seu Carlos pagou a corrida e se dirigiu à recepção. Foi consultado e, ao sair, sentiu falta do menino. Foi até a calçada ver se ele esperava lá fora e voltou perguntando à recepcionista onde estava o garoto que tinha chegado com ele.

— O senhor chegou sozinho — foi a resposta.

Apavorado, seu Carlos pensou ter esquecido Netinho no táxi. Imaginou que o motorista, não o vendo por ser pequeno, tinha ido embora sabe-se lá para onde.

Ligou para uma das filhas, pedindo que “preparasse” a mãe do menino e avisasse à polícia. Um conhecido do CIOP (Centro Integrado de Operações Policiais) foi acionado para disparar o alerta de desaparecimento ou, quem sabe, de sequestro.

Seu Carlos pegou outro táxi de volta para casa, já sabendo que seria acusado de omisso e teria que prestar contas do paradeiro do neto.

Quando o carro parou em frente de casa, a esposa — que o esperava — foi ao seu encontro calmamente. “Ela ainda não sabe…”, pensou. Antes que ela dissesse qualquer coisa, seu Carlos, gaguejando, disparou:

— O Netinho sumiu. Acho que o motorista do táxi em que fui pra cidade sequestrou ele…

Depois de uma pausa para entender o que o homem dizia, a Esposa respondeu:

— Sequestrou quem? O Netinho? Quem ia querer esse traste?

E apontou para o menino que atravessava a rua, sujo e molhado de suor, vindo do campinho de futebol — ainda vestido com a “roupa de sair” que usava para acompanhar o avô.

[Crônica CCXVII/2025 // Publicada originalmente no Blog Banzeiros em 19 de outubro de 2017]

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CIOP GPT40 Porto Velho 

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