
O livro Barranco Alto é dividido em duas partes, contando a história da família Casara (Foto JCarlos)
Não sei qual membro da família Casara conheci primeiro — se o Lito, em manifestações culturais (ele toca bandolim), ou o Hamilton, que foi superintendente do Ibama em Rondônia quando eu assessorava a Federação das Indústrias do Estado, cuja base eram os sindicatos das empresas madeireiras. Depois, Hamilton se elegeu deputado federal.
Eles são primos, e a família Casara tem raízes fincadas no Vale do Rio Guaporé e seus afluentes, na região fronteiriça entre Brasil e Bolívia. O que eu sabia sobre a história da família me foi contado pelo próprio Hamilton — na época deputado — durante uma viagem de carro entre Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO).
Sabia que os Casara haviam explorado um seringal na época áurea da borracha, que o patriarca veio da Itália — e praticamente só isso.

Localização da sededo Seringal Barranco Alto (Relatório Comissão Victor Dequech – Arquivo DNPM/Reprodução)
Ao ler os dois volumes do livro Barranco Alto (Fecomércio/Gráfica Imediata, Porto Velho, 2025), de Emanuel (Lito) Fulton Madeira Casara e Dante Ribeiro da Fonseca, descobri que a aventura da conquista da Amazônia por Américo Casara foi muito maior.
Américo nasceu em Crosara, hoje Província de Vicenza, no norte da Itália, em agosto de 1872, numa família de médicos, engenheiros, professores e militares. Formou-se em arquitetura em Turim e pós-graduou-se em Ciências Sociais e Políticas em Londres. Veio para o Equador a convite dos padres salesianos, para lecionar na Universidade de Quito entre 1895 e 1900.
Até aí, nada que chamasse muito a atenção. Talvez só o estranhamento de um jovem de pouco mais de 20 anos deixar a Europa para ser professor — mesmo numa universidade. Mas o livro de Lito Casara e do professor Dante Fonseca mostra que ali começava uma saga que continua até hoje.
Além de lecionar até 1903, Casara atuou como arquiteto, executando projetos de residências de famílias abastadas, o que lhe permitiu acumular bens e dinheiro. Ajudou a elaborar o Plano Diretor da capital equatoriana e, em 1908, “se embrenhou nas selvas colombianas e aprendeu sobre a extração de látex e a produção de borracha nativa”.
As aventuras de Américo Casara são incríveis — como quando ficou prisioneiro dos índios Uitotos, na margem do rio Putumayo. Os autores narram que, aproveitando a estada, Casara estudou as formas de expressão e os hábitos daquele povo, organizando um dicionário de usos e costumes. Depois de conquistar a confiança dos Uitotos, ensinou técnicas agrícolas, melhorando a produção de milho, e introduziu culturas como cará, mandioca, banana e outras frutíferas. Também remodelou a construção das ocas, tornando-as maiores e mais arejadas.
Vitórias e derrotas se sucederam na vida de Casara, que constituiu família ao se casar com Emma Rios Sanches, com quem teve nove filhos. Após sua morte, em 1940, foi sucedido pelo quarto filho do casal, Giácomo Casara, na administração do Seringal Barranco Alto, edificado na região do rio Corumbiara.
O seringal, além da produção de borracha, era autossuficiente na alimentação da família e dos trabalhadores. Fabricava charque, rapadura, farinha, cachaça e fornecia cereais e boi em pé para comerciantes e outros seringais.
História

A partir da esquerda: Américo Casara, Aluízio Ferreira e ‘Tira Coro’, marreteiros e que fazia as vezes de carteiro – Seringal Barranco Alto, 1930 (Reprodução)
O Seringal Barranco Alto, sob o comando de Américo e depois de Giácomo Casara, esteve presente na formação do Estado de Rondônia. Uma das figuras que inspirou Getúlio Vargas a criar o Território do Guaporé — depois Território e Estado de Rondônia — foi o coronel Aluízio Ferreira, que trabalhou como guarda-livros do seringal, após fugir de Belém, derrotado na Revolta Tenentista, e se esconder no Vale do Guaporé.
Também são citadas relações com o sertanista marechal Cândido Mariano Rondon; Dom Xavier Rey — bispo de Guajará-Mirim e grande protetor dos moradores da região; o engenheiro Victor Dequech, que liderou a comissão em busca das fantásticas minas de Urucumacuã; entre outros.
No dois volumes há muitas fotos de membros da família e o segundo tomo é dedicado à correspondência trocada entre os Casara da Itália e do Brasil, além de documentos diversos.
Declínio
Além da queda no preço da borracha no mercado internacional e dos avanços tecnológicos que deixaram o extrativismo vegetal para trás, a família Casara ainda enfrentou o dissabor de ver as terras do Seringal Barranco Alto serem consideradas improdutivas, desapropriadas e licitadas — logo ocupadas pelos vencedores do processo.
Giácomo Casara dedicou seus últimos dias a uma demanda judicial contra a União, buscando o reconhecimento das benfeitorias e a titulação de 60 mil hectares. No total, eram 308 mil hectares “ocupados mansa e pacificamente desde 1913, por Américo Casara”. Desse total, foram requeridos 285 mil hectares — 92,3% das terras ocupadas e trabalhadas pelo Seringal Barranco Alto.
Os livros são fascinantes na medida em que os acontecimentos externos — nacionais e internacionais — afetam a história da família Casara, que vivia nos confins da Amazônia, numa região praticamente isolada do mundo. Parece paradoxo o que estou escrevendo, mas não é. Descobri isso lendo sobre “a trajetória amazônica do empresário italiano Américo Casara”, como sugere o subtítulo do primeiro tomo da obra de Lito e do professor Dante.
Recomendo.
Serviço:
Livro: Barranco Alto — Tomo I e Tomo II
Edição: Fecomércio RO / CNC / Sesc / Senac
Impressão: Gráfica Imediata
Local: Porto Velho – RO – 2025
Contato com o autor pelo endereço eletrônico litocasara@yahoo.com.br
[Resenha XX/2025]


