03 de outubro de 2025

Degustador de risco

Por José Carlos Sá

Era um uísque chamado Jhonny não sei o quê (Imagem gerada por IA Canva e editada por BN PPT JCarlos)

O número de pessoas intoxicadas por ingerirem bebidas contaminadas com metanol não para de subir. As autoridades, ao reagirem ao surto, “descobrem” que existe um comércio antigo e solidificado de bebidas falsificadas e adulteradas em todo o Brasil.

Um dono de bar em São Paulo admitiu que compra bebida de vendedores de rua — mas todos são conhecidos, ressalta.

Conheci uma pessoa que contava uma história ocorrida lá no início dos anos 1980, quando colou grau em engenharia. O dinheiro que a turma conseguiu arrecadar só cobria o aluguel do salão, o cachê da banda e metade do que calcularam que seria consumido em bebidas alcoólicas. Cada formando deveria bancar as próprias bebidas, para si e seus convidados.

Um dos alunos, porém, resolveu a situação: convenceu o pai a doar as bebidas quentes, o que liberaria verba para comprar cerveja e refrigerantes em quantidade suficiente. No dia da festa, havia uma garrafa de uísque Natu Nobilis em cada mesa. A marca estava em alta no Brasil e custava caro.

Foi um sucesso total — até o dia seguinte, quando quem bebeu o uísque acordou com sintomas de ter sido atropelado por um caminhão descendo uma ladeira. O doador do uísque era o maior distribuidor de bebidas falsificadas do Nordeste, e até hoje os formandos daquela turma não se esquecem do caso.

Eu também.

Já conhecia essa história quando fui acompanhar meu chefe em um evento em Fortaleza, onde ele faria uma palestra. O coquetel de abertura teve bebidas servidas à vontade, com garçons mantendo os copos cheios a cada gole.

A marca do uísque, que eu não conhecia, era Johnny-Não-Sei-O-Quê, tinha o rótulo preto com letras douradas — mas não era o Johnnie Walker. O sabor se aproximava das marcas mais conhecidas, com um leve gostinho de remédio no final.

O dia seguinte também foi de ressaca geral. Via os participantes do evento, que estiveram na recepção, reclamando de mal-estar e dor de cabeça. Um dos organizadores pedia desculpas em particular, acusando a empresa responsável pelo coquetel de ter servido uísque falso.

Não satisfeito com as experiências que conheci e vivi, anos depois aceitei provar um uísque que um amigo — dono de um clube — estava comprando de um vendedor de rua. A bebida não passou no meu teste e o negócio foi frustrado. O distribuidor não contestou meu laudo e saiu rindo.

Arrisquei minha vida e a saúde que tenho pouca. Se fosse hoje, e a bebida tivesse metanol, eu não estaria aqui contando essas presepadas…

[Crônica CCXIV/2025]

Tags

Bebida falsificada Fortaleza Johnnie Walker Natu Nobilis 

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