A vida seguia monótona na Vila Pouca, igual às águas do Ribeirão Branco. Numa tarde quente de janeiro, a modorra foi quebrada por um movimento de homens, cavalos e uma carroça do outro lado do rio, perto da gameleira — árvore que os moradores juravam ser assombrada.
Dona Orlinda, aquela-que-sabe-tudo, logo foi convocada para decifrar quem eram aquelas pessoas, a que vinham e todos os detalhes indispensáveis a uma boa fofoca.
Zequinha da Noca foi despachado para a missão de ir perguntar. Antes mesmo do parecer da dona Orlinda, já havia “certeza” de que eram do MST (“Não pode ser, o Coronel vai mandar expulsar tudo”), ou um circo (“Será que tem palhaços?”), ou mesmo ciganos (“Crendeuspai!”).
O moleque — que atravessou o rio a nado — voltou dizendo que era uma comitiva da Fazenda das Pitombas. Voltaram por outro caminho, já que uma ponte caiu, e tiveram que passar pela fazenda do coronel Bartolomeu. Iriam pernoitar ali para descansar os animais e seguir viagem ao amanhecer.
As atenções dos vila-pouquenses se voltaram para o outro lado do ribeirão. Nenhum gesto dos vaqueiros escapava aos olhos vigilantes dos moradores, sem outra ocupação além de cuidar das vidas alheias.
Por precaução, o administrador da vila foi até o acampamento avisar que não toleraria bagunça. Pediu que não perturbassem ninguém e sugeriu ao capataz que mandasse apenas um homem comprar o que fosse necessário, sob pena de chamar os homens do coronel Bartolomeu para expulsá-los.
O alerta foi desnecessário. A comitiva estava abastecida — especialmente de cachaça. E onde há muita cachaça, há confusão. A noite começou com cantorias e palavrões audíveis do outro lado do rio. As mulheres mais pudicas se benziam; os homens tentavam memorizar os xingamentos que ainda não conheciam.
Por volta das dez da noite, ouviram-se altercações e tiros. Os vigilantes viram alguns vaqueiros se aglomerarem em torno de um homem caído e acenderem velas ao redor. Depois, sentaram-se à beira da fogueira e continuaram bebendo.
— Pronto! Mataram um e estão velando o corpo! — disse um dos observadores. — E quem vai querer ir lá? Se já mataram um colega, vão matar um de nós… Melhor esperar e ver o que fazem com o corpo. Depois avisamos ao coronel e ele manda a polícia.
Ao amanhecer, o acampamento estava vazio. Restaram latas de conserva, garrafas de cachaça vazias e uma ou outra peça de roupa esquecida. Do suposto defunto, nem sinal.
Moradores mais zelosos procuraram terra mexida, algum indício de sepultamento. A hipótese de jogarem o corpo no Ribeirão Branco nem foi cogitada — o volume de água ali mal dá para alguém se afogar.
Depois de buscas infrutíferas, o administrador foi à sede da fazenda do coronel Bartolomeu comunicar o possível crime. Achou prudente registrar o ocorrido, caso desse problema no futuro.
O assunto foi morrendo aos poucos, até que, seis meses depois, o padre Perácio apareceu para a visita paroquial. Em conversa com dona Orlinda, sua representante local, comentou que soube da passagem dos vaqueiros da Fazenda das Pitombas e da confusão.
A polícia, acionada pelo coronel, investigou o suposto assassinato e esclareceu tudo: um dos vaqueiros, bêbado, quis brigar com todo mundo, deu tiros para o alto e caiu no chão, dormindo. Os colegas, de gozação, acenderam velas ao redor dele simulando um velório. No dia seguinte, de ressaca, o homem se levantou, riu da brincadeira e foi embora.
Ninguém acreditou na explicação do padre. Até hoje, ainda buscam, na outra margem do Ribeirão Branco, os ossos do homem que foi assassinado e escondido ali.
[Este texto faz parte do Projeto Vila Pouca – Em desenvolvimento]

