
O chalé fica em meio a araucárias e vegetação de altitude (Imagem gerada por IA Copilot sobre foto JCarlos)
Já escrevi aqui que um dos meus traumas de infância tem a ver com férias. Quando voltávamos dos recessos escolares, as professoras — inexoráveis e com a maior falta de imaginação e bom senso — mandavam escrever uma redação contando como foram as férias. Eu, que não tinha para onde ir, morria de inveja dos colegas que foram para a fazenda do avô ou para a praia de Marataízes (ES).
Hoje, às vésperas de completar 70 anos, já livre daquilo que a ciência chama de “EAI” — Experiência Adversa na Infância — posso contar sobre nossa estada no chalé de serra da tia Josy e do Márcio, lá em Bom Retiro (SC), em um final de semana estendido.
A casa foi construída numa área de mata nativa, com araucárias e vegetação de altitude, além de alguns eucaliptos plantados pelo antigo proprietário. Os passarinhos cantam o dia inteiro, e nem a chuva que caiu no domingo e na segunda-feira passada os intimidou.

A lareira crepitava enquanto lá fora chovia e fazia frio (Imagem gerada por IA Copilot sobre foto JCarlos)
Enquanto chovia e fazia frio lá fora, a lareira crepitava e a conversa rolava de assunto em assunto. Não faltaram as delícias culinárias preparadas por Márcio, Josy e Marcela. Nessas horas, eu era apenas o dégustateur (degustador, pra ti que não fala francês).
Curtimos o ar puro, o canto dos pássaros, a natureza. Com a ajuda de um telescópio amador, observamos as estrelas, a lua e, “supostamente”, o planeta Saturno — que estava visível num aplicativo de celular, mas se mostrava apenas como um ponto brilhante acima das araucárias. Apontamos as lentes para aquele pontinho no céu e o saudamos como se Saturno fosse.
Os anfitriões nos falaram dos avistamentos de animais, e criei a expectativa de me deparar com um deles — qualquer um — antes de voltarmos para casa.
Poderia ser o gato-mourisco (Puma yagouaroundi), que passou lentamente em frente ao chalé e que a Josy fotografou; ou o leão-baio (onça-parda, Puma concolor), captado pelas câmeras de segurança de um vizinho; ou ainda um tatu (Dasypodidae), que andou passeando pelo quintal da tia. Também aguardei o bando de macacos-prego-da-cara-branca (Cebus capucinus), vistos nas araucárias fazendo algazarra…
Mas, para minha tristeza, nenhum deles deu as caras — ou melhor, os focinhos. Ainda assim, não fiquei triste. Vou transformar essa nova frustração em pretexto para novas viagens à serra, em busca dos avistamentos e, quem sabe, da comilança… enquanto os bichos não vêm.
[Crônica CCX/2025]

