Herdamos do homem primitivo o medo do sobrenatural — ou daquilo que não temos explicação. Dentre as tantas e curiosas crendices que povoam o nosso imaginário estão as “pragas”. Pragas no sentido de “desejos fortes de que algo mau, como infortúnio ou azar, aconteça a alguém” — e não de ervas daninhas.
Há aqueles que acreditam que certas palavras vêm acompanhadas de espíritos incumbidos de cumprir o desejo de quem as proferiu. Para o bem ou para o mal. Mas como se defender dessas imprecações, se você nem sabe quem as lançou — ou o que fez para merecê-las?
Na minha infância, ouvia os mais velhos comentarem sobre várias estratégias de defesa, especialmente para proteger crianças que ainda não tinham sido batizadas e, por isso, estavam vulneráveis a todo tipo de inveja, olho gordo e outros malefícios.
Amarrar uma figa feita com o tronco da erva-de-guiné (Petiveria tetrandra) no pulso do pagãozinho, com uma fita vermelha, ou deixar uma tesoura aberta sob o berço eram algumas das táticas para espantar o mau-olhado.
Mas e os adultos? Que estão em constante exposição e podem, às vezes do nada, provocar a reação de alguém que deseje que aquela pessoa “arda no mármore frio do inferno”? Para esses há patuás, rezas, benzeções e outros artifícios para repelir pragas enviadas contra si.
Pragas bem intencionadas
Por curiosidade, fui colecionando algumas pragas que ouvi por aí — difíceis de escapar. Uma delas foi lançada pelo compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, na música Vingança. Dá pra supor que a raiva dele era grande. O verso diz: “Você há de rolar como as pedras / Que rolam na estrada / Sem ter nunca um cantinho de seu / Pra poder descansar.”
É um castigo pior que o de Prometeu, condenado por Zeus a ficar acorrentado a um rochedo, enquanto uma águia vinha todo dia comer-lhe o fígado — que se regenerava. E assim, eternamente.
Outra praga forte: “Se Deus quiser, esse cidadão vai sofrer muito.” Mas não sei se Deus, por princípio, toparia atender esse tipo de pedido.
Também ouvi essa do meu pai: “Quero ver a caveira dele — e com um ninho de curruíra dentro.” Nunca consegui juntar as duas imagens: os ossos do crânio de alguém e um passarinho tão delicado fazendo ninho naqueles despojos humanos.
Um outro desejo de sofrimento eterno ouvi de um motorista de aplicativo, ao comentar uma notícia sobre políticos contemporâneos: “Tem que pagar em vida o mal que fez!”
Eu não acredito nessa coisa toda que comentei acima. Mas, por precaução, carrego na carteira três papeizinhos com conjurações poderosas contra todo o mal — do passado, presente e futuro.
É só por precaução, entende?
[Crônica CCIX/2025]

