12 de setembro de 2025

Perdendo a pomba do Divino

Por José Carlos Sá

José perdeu a pomba do Divina durante a procissão (Imagem gerada por IA Copilot/Editada BN PPT JCarlos)

Há muitos anos, aqui em São José, durante a Festa do Divino — celebração trazida pelos imigrantes portugueses, originários do Arquipélago dos Açores, aconteceu um fato inusitado que poucas pessoas ficaram sabendo. Eu conto para vocês agora.

Dona Jerónima não tinha condições de comprar as vestimentas de pajem para que o filho participasse do cortejo do Imperador e da Imperatriz. Via a tristeza do menino ao observar os coleguinhas com aquelas roupas de veludo, cheias de detalhes dourados, que deixavam quem as vestia “todo duro e nem olhava para os lados”.

Depois de muito pensar, encontrou um jeito de incluir o filho na Festa. Quando foram escolhidos os festeiros do ano seguinte, procurou o presidente da comissão e pediu que o menino levasse o mastro com a bandeira do Divino — que ia à frente da procissão. Conseguiu o compromisso: José seria escalado para a função.

O ano passou devagar para o menino, que treinava no quintal com uma toalha vermelha amarrada na ponta de um cabo de vassoura, ensaiando para o grande dia.

Quando maio chegou, José já não se continha. Perturbou a mãe até que ela costurasse a roupa — impecavelmente branca — que usaria na cerimônia. Enfim, chegou o dia. Dona Jerónima, com José pela mão, foi ao local de onde partiria a procissão.

O organizador levou o menino ao seu lugar no dispositivo e entregou o mastro, enfeitado com fitas coloridas e uma bandeira vermelha bordada com a pomba do Espírito Santo. José recebeu a peça com toda solenidade possível e ficou encantado ao ver, no alto do mastro, uma pomba de gesso, de asas abertas.

A procissão começou. José, todo importante, seguia à frente, olhando para os lados como quem dizia: “Estão me vendo, levando a bandeira do Divino?”

Ao dobrar uma esquina, distraído, passou sob um limoeiro cujos galhos se projetavam sobre o muro. O tecido da bandeira se embaraçou nos espinhos. José deu um puxão, liberou o tecido e seguiu em frente.

Dez passos adiante, lembrou-se de verificar se a bandeira havia rasgado. Foi então que notou: a pomba não estava mais no alto do mastro. Olhando para trás, viu um objeto branco “pousado” entre os galhos do limoeiro.

Fez menção de voltar para resgatar a pomba, mas o fluxo das pessoas atrás dele o impediu. Sem graça, completou o trajeto até a igreja, onde depositou a bandeira no altar — sem a pomba.

Foi a primeira e última vez que José participou do cortejo do Divino Espírito Santo como membro da comitiva do Imperador. Nunca se perdoou por aquela distração.

[Crônica CCIII/2025]

Tags

Arquipélago de Açores Festa do Divino São José 

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