08 de setembro de 2025

Por via das dúvidas

Por José Carlos Sá

Quando cheguei, vi quatro homens. Mas eles não estavam lá (Imagem gerada por IA Copilot/Microsoft)

Desembarquei do Uber na porta do asilo, a cerca de 30 quilômetros da cidade, numa antiga fazenda. Bati e um homem da minha idade abriu, perguntando o que eu desejava. Disse que havia avisado que chegaria por volta das dez da noite.

Ao se afastar para que eu entrasse, desejando boas-vindas, notei que era coxo e se apoiava numa bengala. Disse que também era hóspede e que eu deveria seguir até o fim do corredor, onde encontraria o enfermeiro de plantão. Piscou e murmurou: “Ele deve estar dormindo…”

Na sala ampla, iluminada apenas por luminárias, vi dois homens jogando cartas numa mesa. Acenaram de longe. Outro abajur iluminava uma poltrona onde um homem lia — ou cochilava — com um livro no colo.

O enfermeiro estava mesmo dormindo. Pediu desculpas, me levou ao quarto e combinamos que trataríamos dos assuntos burocráticos pela manhã, já que o cadastro havia sido feito por WhatsApp.

Acordei cedo e fui à sala de café. Havia apenas duas mulheres numa mesa de canto. Cumprimentei, me servi e depois fui ao escritório completar os documentos e conversar com a assistente social.

Ela confirmou que eu havia chegado sozinho à Casa de Repouso — evitava a palavra “asilo” — e quis saber o motivo. Contei que minha nora e eu não nos dávamos bem, e para evitar mais aborrecimentos, saí da minha casa em busca de um lugar onde pudesse esperar a morte em paz. Deixei um bilhete dizendo para onde ia, pedindo que não me buscassem nem me visitassem.

Dois dias depois, estranhei não ter visto nenhum dos homens da noite em que cheguei: o coxo, os jogadores de cartas e o leitor dorminhoco, como os apelidei.

Após o almoço, perguntei à copeira se havia internos que faziam refeições nos quartos. Ela respondeu que, além de uma senhora com sérios problemas de locomoção, todos iam ao refeitório para as cinco refeições diárias.

Comentei que tinha visto quatro homens na noite da chegada e os descrevi.

A copeira, parda, empalideceu. Se benzeu três vezes. Olhei espantado e perguntei o motivo.

Ela falou em voz baixa: eu tinha visto fantasmas.

O homem da bengala morreu nos primeiros dias da pandemia. O leitor morreu de cirrose há seis anos — foi encontrado morto na poltrona onde o vi. Os jogadores de cartas eram irmãos e morreram num acidente de trânsito, voltando do enterro de um parente. Eu era o primeiro a relatar tê-los visto desde que morreram.

Agora fui eu quem me benzi. Voltei para o quarto, rezei pelas almas que vi naquela noite — e não pensei mais no assunto.

Por via das dúvidas, não frequento a sala de visitas depois das seis da tarde.

[Crônica CC/ 2025]

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Abrigo de idosos fantasmas Visagem 

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