Tenho histórico de hipertensão na família. Minha mãe , D. Nilta, é hipertensa, e eu só soube disso quando descobri que também tinha “pressão alta”. Recebi o diagnóstico durante um exame de rotina e só então fui pesquisar se era genético.
Mas continuei a vida como estava antes de saber do mal: bebendo e comendo o que não devia. Com o avanço da idade, os sintomas da hipertensão foram se tornando mais evidentes e, aí sim, passei a me cuidar — tomando o remédio religiosamente e fazendo alguma atividade física. Isso ajudou a estabilizar a pressão, mas ela está lá, só esperando uma desculpa para se transformar em um AVC (Acidente Vascular Cerebral).
E eu pensei que o dia era hoje.
Fui à padaria, como de costume. Fiz meu pedido, paguei, entrei no carro, liguei o motor e engatei a marcha à ré. Quando soltei o freio de mão e olhei pela janela para sair do estacionamento, vi tudo nublado.
Fechei os olhos e olhei de novo. Parecia que eu estava dentro de uma nuvem. Não via nada com clareza. Nessas horas, os maus pensamentos sempre tomam a dianteira e, maldosamente, nos bombardeiam com milhões de sugestões — de AVC a um desmaio iminente.
Seguindo esse instinto de que algo ruim estava prestes a acontecer, me virei para desligar o carro e me vi, de relance, no espelho retrovisor. Eu não estava tendo nada. É que eu não tinha retirado do rosto os óculos de leitura, que havia colocado para pagar as despesas da padaria. Por isso não enxergava as imagens de longe.
Não foi dessa vez, ainda, que a “indesejada das gentes”, como a chamava o poeta Manuel Bandeira, veio me buscar.
[Crônica CXCIX/2025]

