Ao ler uma matéria sobre a prisão de um homem que entrou na Colônia [Penal] Agroindustrial de Palhoça (SC) carregado de “encomendas” destinadas aos presos, lembrei imediatamente de uma gravura do francês Jean-Baptiste Debret (1768–1848), que retratava uma cena cotidiana do Brasil Império: a imagem mostrava um tropeiro conduzindo uma tropa de animais carregados de mercadorias.
A imagem do tropeiro formada na minha imaginação — que também poderia ser a dos “mascates”, que percorriam as estradas do interior do Brasil vendendo bugigangas, ou do “batelão”, que fazia o mesmo nos rios da Amazônia — se cristalizou quando vi as fotos do material apreendido.
Havia 50 pacotes de fumo desfiado; 20 isqueiros; 22 aparelhos celulares; 12 carregadores; seis chips; cabos USB e fones de ouvido (não consegui contar quantos). A carga principal, no entanto, era outra: mais de 2,3 kg de maconha em tabletes e 880g de maconha separada em porções.
Essa entrega frustrada já é a segunda tentativa de contrabando de “ilícitos” para o interior da colônia penal. Em março deste ano, um policial penal foi preso por tentar entrar na penitenciária com “quase um quilo de maconha, onze gramas de cocaína, vinte pacotes de cigarro, dois celulares, três carregadores, três cabos USB tipo C, 32 pacotes de papel de seda, também 10 chips de celulares e uma balança de precisão” — tudo disfarçado em meio a material de higiene.
A semelhança entre o trabalho dos tropeiros antigos e desses tropeiros que assim denominei fica só no nome. Enquanto uns levavam mercadorias para garantir a vida, os atuais são portadores de produtos que carregam consigo a morte.
[Crônica CXCVII/2025]


