
As capivaras atraem as lentes das câmeras, onde quer que elas estejam (Foto Marcela Ximenes – Parque Barigui – Curitiba/PR)
As capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) há pouco deixaram o semi-anonimato para entrar de vez na cultura pop. Dizem que foi a pandemia da Covid-19 que as trouxe do ambiente natural para a convivência urbana — nas praças, nos parques, nas lagoas e até nas aglomerações que antes eram só nossas.
Há cidades, como Curitiba, por exemplo, que as elevaram à condição de atrativo turístico e quase símbolo da metrópole paranaense. Em outros lugares, como Belo Horizonte, o animal quase foi considerado uma praga, e campanhas de castração foram lançadas para controlar a superpopulação.
Mesmo provocando mais admiração do que repulsa, o crescimento da população de capivaras começa a disparar o alarme: o descontrole pode representar uma ameaça aos humanos. Especialmente porque elas são hospedeiras do temido carrapato-estrela, transmissor da febre maculosa.
De pop a trash
Não é culpa delas. Nós, humanos, é que bagunçamos a natureza — e quem leva a culpa são os outros seres com quem dividimos o planeta e de quem estamos tomando, pouco a pouco, todo o espaço.
Nessa linha de pensamento, lembro que comentei um conto escrito por minha sobrinha Patrícia Alves de Sá, A capivara do fim do mundo, que integra a antologia Cérebros para o jantar. No texto, as capivaras viram zumbis, e os carrapatos que elas hospedam “podiam transmitir aos humanos a zumbizisse do animal de pescoço torto”, como escrevi na resenha.
Agora, estudos do Laboratório de Transportes e Logística da Universidade Federal de Santa Catarina, em parceria com a Secretaria Nacional de Aviação Civil, incluíram a capivara como um perigo para a aviação nacional. O título da matéria era: “Capivara já é quarta espécie com maior risco na aviação brasileira, aponta guia da UFSC”!
Você leu certo. Vou repetir para não deixar dúvidas: “A quarta espécie com maior risco para a aviação brasileira”! Ao ler isso, minha imaginação fértil já visualizou aerocapis sobrevoando as cidades e dando chega pra lá em aviões — de Boeings a teco-tecos.
Falando sério agora: o perigo representado pelas capivaras está na invasão das pistas de pouso, obrigando pilotos a arremeterem. O estudo indica que houve 33 colisões desde 2019, ano em que os acidentes com esse animal começaram a ser reportados. Cinco dessas colisões geraram danos ou prejuízos. O pouso foi a fase mais crítica, com registros em 19 episódios. A arremetida foi o efeito mais comum, com quatro apontamentos.
Por enquanto, as providências sugeridas são o cercamento das pistas e o monitoramento das valas de drenagem para identificar a presença dos animais.
Como escrevi mais acima: invadimos o espaço dos bichos — e eles vêm ficar conosco.
[Crônica CXCVI/2025]




