
Queria trabalhar na cozinha e fui fazer faxina; queria ser motorista e fui ser datilógrafo. Acabei lucrando (Imagens geradas por IA Copilot e Monica / Edição BN PPT JCarlos
Quando decidi que queria mesmo prestar o serviço militar na Aeronáutica, comecei a colecionar informações sobre como era lá. Meu primeiro informante foi o cunhado da minha namorada. Ele era taifeiro e trabalhava no “Rancho dos Oficiais”.
Entre muitas dicas que o Figueiredo me deu, uma foi especialmente valiosa: os testes vocacionais. Eles eram usados para direcionar os militares de baixa patente às funções nas quais tinham alguma afinidade — ou, pelo menos, alguma empatia.
Ele disse, por exemplo, que se eu não quisesse ser bombeiro, deveria responder que jamais entraria num prédio em chamas para resgatar alguém, que não me aproximaria de um carro pegando fogo, ou que não podia ver sangue. Essa última resposta também me manteria longe do ambulatório.
Quando terminou o meu período de três meses de recrutamento, fizemos o bendito teste vocacional para sermos distribuídos nos diversos setores que administram a máquina burocrática dos quartéis. Respondi às questões de forma que minha destinação fosse trabalhar no rancho — sonho dos gordinhos.
A estratégia deu certo. O 23 (soldado Ricardo) e eu fomos classificados como “SV”, sigla para serviços. Era o pré-requisito mais importante para sermos lotados na cozinha, onde poderíamos trabalhar em um dos três ranchos (dos praças, dos subtenentes e sargentos ou dos oficiais). Estando lá, não tiraríamos serviços nos postos, não participaríamos das formaturas (eventos militares que acontecem regularmente) e poderíamos comer o dia todo!
Porém, não
Mas não combinamos com o adversário, e nosso plano foi frustrado. Fomos lotados no hangar, onde eram guardados e recebiam manutenção os dois aviões da Base Aérea de Belo Horizonte: um T-25 e um C-42.
Dois meses e muitas horas de voo em vassouras, rodos e espanadores (alguém lembra o que é isso?) depois, fomos novamente deslocados — agora para o SPV (Serviço de Proteção ao Voo), subordinado a um órgão do Ministério da Aeronáutica com sede no Rio de Janeiro.
Nesta nova função, nada tenho a reclamar. Eu tirava serviços em um local isolado, recebia diárias e consegui guardar dinheiro para montar minha casa, pois já pensava em casamento.
Os conhecimentos de engodo ao teste vocacional foram usados novamente quando concluí a primeira fase do Curso de Formação de Cabos. Preenchi o formulário pendendo as respostas para me tornar motorista, mas “eles” precisavam de um datilógrafo — e fui designado para a área administrativa. No fim das contas, acabou sendo bom para o meu futuro. Com os conhecimentos adquiridos nesse curso, passei no vestibular de Jornalismo e, depois, em um concurso da Rede Ferroviária Federal como “escrevente”.
Em resumo, não fui cozinheiro, nem motorista — fui escrevente. E até hoje sigo fazendo pose de cronista e contador de histórias. Talvez, se não tivesse burlado o teste vocacional, nunca teria encontrado a verdadeira vocação que me escolheu antes mesmo de eu saber que a procurava.
Ou não.
[Crônica CXCII/2025]
