
Para o menino, o ovo indez era uma bolinha para brincar (Imagens geradas por IA Designer/Copilot e editaddas com Photoroom e PPT)
No domingo, eu olhava (mas não ouvia) para a tevê que exibia o programa Globo Rural, e vi quando uma mulher enfiou a mão sob uma galinha que estava deitada num ninho e retirou de lá dois ovos. A galinha, sem ter mais o que fazer — pois deveria estar tentando chocar os ovos para ter filhos —, se levantou e saiu de cena.
Me lembrei de um fato de quando eu era criança pequena. Fui com minha avó Rosinha pegar ovos no quintal, como fazia quase todos os dias, mas naquela ocasião vi que a Vozinha (era assim que eu a chamava), em determinado ninho, pegou um ovo e deixou o outro lá.
Perguntei a razão daquilo e ela voltou ao ninho, pegou o “ovo” e me mostrou. Não era ovo nem nada — era uma bolinha de pingue-pongue!
Aí eu não entendi nada mesmo. O que uma bolinha de pingue-pongue estava fazendo no ninho de uma galinha?
Vozinha explicou que aquilo era um “ovo indez” — ou “chama”. Servia para enganar as galinhas e induzi-las a botar mais ovos naquele ninho.
Ouvi a explicação e não entendi a lógica da coisa. Para mim, aquilo não era um ovo indez, era uma bolinha de pingue-pongue. E, sendo assim, pedi para ficar com ela e brincar, já imaginando a bolinha quicando no corredor da casa.
O pedido foi negado, e a bolinha-ovo voltou para o ninho, sendo logo coberta maternalmente por uma galinha.
Não sosseguei enquanto não voltei lá, espantei a galinha e arrebatei o tal do ovo indez, que levei imediatamente para testar suas propriedades de ricocheteio: do chão na parede, da parede no teto — e em todas as possibilidades que uma bola de pingue-pongue oferece.
Deixaram que eu brincasse até a hora de ir embora. No dia seguinte, quando cheguei à casa da Vozinha e procurei a “minha” bolinha, não a encontrei mais. Ninguém sabia seu paradeiro. Fui investigar no galinheiro, mas a bolinha de pingue-pongue havia sido substituída por um ovo de madeira — daqueles usados para ajudar a cerzir meias.
Não me lembrava mais disso até ver o trecho da reportagem do programa de tevê. Esse cérebro nosso é estranho mesmo, só precisa de uma desculpa qualquer para despertar memórias há muito adormecidas.
[Crônica CXC/2025]
