19 de agosto de 2025

A difícil arte de vigiar sem ser indelicado

Por José Carlos Sá

O fiscal das bolsas e os olhares tortos (Montagem com imagens geradas e editadas por IA Firefly, Monica, Remove.bg e BN JCarlos)

Passando pela frente de uma edificação que vai abrigar um supermercado, vi que estão naquela fase em que a construção precisa conviver com a montagem das prateleiras e o início da colocação das mercadorias nos expositores.

Esse é um estágio delicado: equipes de diferentes empresas precisam fazer seu trabalho sem atrapalhar umas às outras, com os olhos na contagem regressiva para que o lugar comece a funcionar na data que, provavelmente, já está sendo anunciada.

A cena me fez lembrar de uma passagem que vivi. Quando dei baixa da Aeronáutica, no início da década de 1980, me empreguei no Carrefour, cuja filial em Contagem (MG) ainda estava em construção. Fui contratado como “supervisor de segurança” e destacado para ficar no acesso principal da loja.

Na primeira semana, eu não tinha nada a fazer além de “supervisionar” o trabalho dos pedreiros e do pessoal de acabamento do piso. Passava os dias observando o vai-e-vem e ouvindo o barulho das máquinas polindo o granito, misturado às vozes altas dos operadores tentando conversar acima do ruído dos motores.

Com a aproximação da inauguração, começaram a chegar as peças das prateleiras, que eram montadas rapidamente. Em seguida, outros funcionários traziam carrinhos com caixas e mais caixas de mercadorias, que eram separadas e arrumadas em seus lugares. Depois vinham os cartazes com os preços dos produtos.

Foi nessa fase que começaram os problemas para mim. Minha função passou a ser revistar as bolsas e mochilas dos funcionários na chegada e na saída. Meu horário coincidia com o pessoal do turno da noite que saía e com o do turno intermediário que chegava.

Mesmo que o procedimento de revista tivesse sido avisado e fizesse parte da rotina, e mesmo que eu procurasse desempenhar minha função com toda a educação e gentileza, era xingado em voz baixa pelos colegas — especialmente pelas mulheres.

Sofri nessa função durante uma semana e, por graça de Deus — que ouviu minhas orações — fui chamado para trabalhar em uma fundação da Prefeitura de Contagem, onde eu havia deixado currículo enquanto procurava emprego.

O curto período em que trabalhei como supervisor de segurança me deixou traumas.

[Crônica CLXXXIII/2025]

Tags

Aeronáutica Carrefour Comportamento Educação Prefeitura de Contagem 

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