A história é igual à de muitos — e o final também é bastante conhecido. O chefe da casa, incomodado por não encontrar por perto as condições para sustentar a prole, um dia sai em busca de oportunidades, prometendo voltar para buscar a família. Mas não volta.
Assim aconteceu com aquele casal. Moravam de favor na casinha existente acima de um restaurante popular. O lugar era apertado, e a vizinhança, barulhenta — especialmente os moradores da casa contígua, que tinham cachorros que faziam barulho e os ameaçavam ferozmente.
Um dia, ele acordou com a decisão tomada: iria em busca de um futuro melhor. Falou, mais uma vez, de seus planos à companheira, saiu de casa só com o que estava vestindo — e foi embora sem olhar para trás.
Ela, sem poder delegar o cuidado e a educação dos filhos, seguiu vivendo. Sempre com muita tristeza, mas com a certeza de que o marido voltaria para casa e que continuariam a viver juntos até a velhice.
Os anos se passaram. Os filhos cresceram e seguiram cada um seu próprio destino. E ela, como Penélope à espera de Ulisses, esperava o marido com o olhar cada dia mais longe, na porta de casa.
O restaurante popular do andar de baixo fechou e foi abandonado. A casa em que moravam, há muito, deixou de ser limpa. “Limpar pra quê?”, ela justificava para si mesma. Sem mais vontade de viver, deixou de comer, de beber água — e morreu como morre um passarinho: silenciosamente e sem queixas.
Um mês depois, ele voltou alegre, assobiando. Mas parou ao ver a casa coberta de limo. A tristeza o invadiu ao encontrar os restos mortais da esposa no batente da porta. E viu que era tarde demais.
[Crônica CLXXXII/2025] Texto inspirado no cadáver de uma cambacica (Coereba flaveola) que encontrei na entrada do ninho existente acima do comedouro de passarinhos que temos aqui em casa.

