
Pavão (Pavo cristatus) – Vaidade em plumas e olhos, até que os pés revelam a verdade (Ilustra Jessica Roux/Reprodução)
Dentre as histórias, lendas e causos que minha avó contava quando eu era criança, uma ficou gravada a fogo no meu cérebro: a do pavão (Pavo cristatus), que se achava a criatura mais bonita do universo — até o dia em que viu os pés feios que tinha. Só fui entender a metáfora da vaidade muito tempo depois.
Em Ornitografia — A linguagem secreta das aves (Darkside Books, Rio de Janeiro, 2025), são citadas lendas e o simbolismo de 108 aves retratadas, entre elas o pavão, que a autora informa ser sagrado em diversas culturas. Na mitologia grega, por exemplo, Hera — mulher de Zeus — o utilizava para puxar sua carruagem.
O livro me foi oferecido como sugestão ao aplicar um cupom de desconto da editora, referente a outro título que comprei e ainda não li. Poucos dias antes, a obra havia sido comentada por alguém do grupo de WhatsApp dos Observadores de Pássaros de Santa Catarina, do qual faço parte como “ouvinte”.
A autora, Jessica Roux, é norte-americana e, além de escritora, também ilustra seus livros. Suas obras têm como característica unir informações sobre natureza, história, mitologia e folclore. No caso deste livro sobre pássaros, ela inclui também a distribuição geográfica das espécies. Os desenhos são muito bonitos, com a leveza que o tema exige.

Biguá (Phalacrocorax brasilianus)
Fantasma das águas, mensageiro dos naufrágios (Ilustra Jessica Roux/Reprodução)
Destaco algumas aves que selecionei para comentar aqui, começando pelo biguá — muito comum no litoral de Santa Catarina. A autora conta que, no folclore norueguês, acredita-se que os mortos em naufrágios voltam transmutados em biguás.
O flamingo, ave de cores vibrantes e porte elegante, pode, segundo Jessica Roux, ter dado origem ao mito da fênix — aquela ave mitológica que tinha “o poder de se incendiar e renascer das próprias cinzas”.

Beija-flor (Trochilidae) – Guerreiros e mães renascem em voo breve e cintilante (Ilustra Jessica Roux/Reprodução)
Na minha seleção, em seguida vem o beija-flor. Os astecas acreditavam que os guerreiros mortos em batalha e as mulheres que morriam no parto se transformavam em beija-flores.

Íbis (Threskiornithinae) Sagrado até para fazer companhia aos faraós na outra vida (Ilustra Jessica Roux/Reprodução)
Já o íbis era uma ave considerada sagrada pelos egípcios por representar o deus Thoth. Na cidade de Hermópolis Magna, centro do culto a Thoth, “os íbis eram considerados tão sagrados que eram mumificados e enterrados ao lado dos faraós”.

Coruja (Strigiformes)
Olhos que veem o invisível, presságios em silêncio. Shakespeare sabia: nem toda sabedoria é bem-vinda (Ilustra Jessica Roux/Reprodução)
A simbologia associada à coruja, neste livro, é a de mau presságio. Para respaldar essa sina, até Shakespeare é citado.
Finalmente, faço as honras à harpia, considerada a maior ave de rapina brasileira, também conhecida como “gavião-real”. No simbolismo proposto pela obra, ela representa a crueldade — pois seu nome remete às harpias da mitologia grega, criaturas meio mulher, meio ave, incumbidas de levar almas ao submundo.
As pobres harpias (Harpia harpyja), longe de serem cruéis, estão em perigo de extinção na Amazônia e na Mata Atlântica.
Recomendo o livro para quem gosta de pássaros — e de aves que habitam também o imaginário popular em todas as culturas.
[Resenha XIX/2025]



