
A Tetê, como imaginamos que ela atuava e a ocupação atual dela (Imagens geradas e editadas por IA – Copilot, Pixiz e Photoroom, sobre foto de Marcela Ximenes)
A expressão “a pessoa certa no lugar errado” costuma ilustrar bem a desarmonia entre uma função e quem a desempenha. Os exemplos mais fáceis de citar são os jogadores de futebol, quando são escalados para atuar em uma posição que não lhes favorece. Basta o técnico mudar a colocação e, de repente, o atleta vira peça de alto rendimento — e até marca gol!
Curiosamente, essa lógica também se aplica aos animais — como descobrimos aqui em casa.
Temos cinco cachorros: um macho, o Argus, e quatro fêmeas — Azula, Atena, Aurora e Fayga. Elas se revezam entre as duas partes do quintal durante o dia. E, enquanto estão de “plantão” na frente, latem para quase tudo que passa na rua.
A exceção é Atena — a Tetê — cuja atividade principal é dormir. Se tiver sol, ela se entrega ao sono como quem cumpre um ritual sagrado. Se estiver frio, como agora, nem o cheiro da ração a convence a sair debaixo das cobertas. Nesses dias, ignora solenemente tudo que acontece fora da caminha.
Ontem à noite, enquanto me aguardava voltar de uma reunião, a Marcela deixou a dupla Fayga–Tetê solta no quintal — justamente no horário em que as duas já costumam estar recolhidas ao leito.
Para surpresa da Marcela, quem assumiu a vigilância da rua foi Atena. Postou-se sentada sobre as patas traseiras em frente ao portão, dando alarme a cada movimento da vizinhança.
Como a recolhemos da rua depois de ter sido atropelada, não sabemos nada sobre sua vida pregressa. Mas, pela postura e ferocidade com que guarda nossa casa, começo a desconfiar que ela tenha sido vigilante noturna em alguma firma — daqueles que não deixam passar nem sombra.
Só pode.
[Crônica CLXXXI/2025]
