04 de agosto de 2025

Como meu pai dizia

Por José Carlos Sá

Primeiro a obrigação, depois a televisão (Imagem criada e editada por IA e BN)

Meus irmãos e eu fomos criados sob um regime muito rígido, com coças de cinto e chineladas ocasionais — especialmente em crianças como eu, que tinha um espírito “indomável” (hahahaha).

Após as travessuras serem descobertas e as punições aplicadas (sovas e castigos), havia uma pena acessória: éramos obrigados a ouvir uma “preleção”, assim chamada por meu pai. Eu já intuía o sentido da palavra, mas hoje resolvi pesquisar de fato. No Houaiss encontrei: “s. f. Palestra com fins educativos ou didáticos; aula, lição.”

Essas preleções, para mim, doíam mais do que a pisa propriamente dita. Preferia as palmadas à obrigação de refletir sobre o que havia feito — malcriações, quebrar alguma coisa, mexer onde não devia, ignorar as tarefas domésticas ou brigar com os irmãos (que nessa época eram só dois).

Tanto mãe quanto pai eram ‘useiros e vezeiros’ de provérbios e adágios. Recorri à memória e consultei a família, tentando resgatar esse repertório popular — algumas dessas expressões ainda não encontrei na literatura (não falo da internet) nem ouço em outros ambientes.

Listei abaixo alguns desses ditados e suas aplicações práticas:

Provérbios paternos

Não é só Deus que mata (Imagem gerada por IA Copilot)

“A gente adula é santo, e assim mesmo quando quer milagre” — dito quando alguém recusava o almoço e mãe insistia que comesse.

“Dia de muito, véspera de nada” — para evitar desperdício, especialmente de comida.

“Por causa dos santos se beijam as pedras” — sobre sacrifícios por quem se gosta.

“Criança é para ser vista e não ouvida” — lembro da frase, mas não lembro do momento.

“Não é só Deus que mata” — usado ao ver um de nós exagerando na comida.

“Meu filho, seja o que sua mãe nunca foi: homem” — incentivo paterno para que meu irmão e eu tivéssemos atitude.

“Eu sou homem, mas não sou fanático” — justificando ter sentido medo em algum causo de assombração.

“Tudo demais é sobra” — uma das minhas favoritas. O excesso, em qualquer coisa, prejudica.

“Quem fala muito dá bom dia a cavalo” — essa ficou marcada; já ganhou até uma crônica exclusiva.

“Quem come e guarda, come duas vezes” — outro reforço contra a gula desenfreada.

“Primeiro a obrigação, depois a devoção (diversão)” — dito quando pedíamos para ligar a TV antes de terminar os deveres.

“Assombração sabe para quem aparece” — geralmente aplicado a episódios externos ao lar, vindos do mundo do trabalho.

“Não se mexe com quem está quieto” — usado em causos passados contados por pai, ou situações que pediam prudência.

“Quem não ouve conselho ouve coitado” — um alerta disfarçado de sabedoria.

“Quem avisa, amigo é” — essa me gelava o sangue. Sempre vinha com aquele ar de que algo muito pior poderia acontecer. Era a mais temida de todas, especialmente se antecedida do prefixo: “Neném, Neném, abre seu olho que você não é cego!”

Hoje, quando me pego repetindo uma dessas frases percebo o quanto a voz do meu pai continua ecoando em mim. Não pelas chineladas, mas pela coleção de palavras bem encaixadas, ditas com gosto, sem pretensão de sabedoria. 

Como pai dizia: algumas coisas se guardam pra comer duas vezes.

[Crônica CLXXV/2025]

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