Antes de mais nada, uma declaração de princípios: não sou dos maiores fãs de cachorros e gatos. Pelo contrário (sem trocadilho). Mas nunca os maltratei — além de causar sustos eventuais e de um episódio isolado com um pinscher que me declarou guerra, como a Rússia declarou à Ucrânia: sem aviso prévio e por questões de território.
Para mim, está muito bom os cachorros e gatos lá no lugar deles e eu aqui. Até porque já fui mordido por cães quatro vezes.
Mas vamos ao que interessa.
Recebemos como presente o livro da nossa amiga, a jornalista Elaine Coelho — uma coletânea de vinte textos de autores brasileiros, todos girando em torno de cães cujas histórias estão emaranhadas às vidas de seus donos (ou tutores, como preferirem). Em alguns relatos, a identificação entre animal e humano é tamanha que parecem formar um só ser.
O livro, Histórias brasileiras de cães (Editora Maralto, Curitiba, 2024), foi organizado pelo escritor, editor e professor Rogério Ramos (1955–2024) e reúne grandes nomes da literatura nacional — como Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade — às voltas com cachorros reais ou fictícios que ganham dimensões profundamente comoventes.
Confesso: quase desisti de ler o livro por completo. As primeiras histórias abordam as mortes dos animais de estimação e o reflexo disso em seus humanos. Para quem tem cães em casa (aqui temos cinco. Cinco!) e mantém um elo de afeto com os bichinhos, a leitura não é fácil. Foram casos de atropelamento, tiro, envenenamento e um “desaparecimento”.
Destaco dois casos que me deixaram particularmente entristecido. Um é o da cadela Baleia, que rouba a cena em Vidas Secas, de Graciliano Ramos (avô do organizador desta coletânea). A narrativa da morte dela já entrou para o panteão das obras-primas da literatura brasileira.
O outro destaque vai para o conto Teoria do cão, em que o autor adota ‘Coronel’, animal de estimação de um morador de rua que havia falecido. O cachorro é levado para o apartamento do cuidador e, após um período de adaptação, leva seu novo dono para morar na rua e mendigar.
O livro é muito bom, retratando as diversas formas de gostar e conviver com cães de vários temperamentos e manias. Parafraseando Vinícius de Moraes, no poema Enjoadinho, eu digo: “Cães, cães? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / Como sabê-los?”
Como, pergunto?
[Resenha XVII/2025]


