Muitas vezes conto coisas que acontecem comigo e a gentil leitora ou o prezado leitor acham que exagero nas histórias. Mas não há exagero. Conto apenas os fatos. Só que, por suas características, acabam parecendo que atraio situações inusitadas, como no dia em que fiquei preso… a um avental.
Isso mesmo. Um avental.
Refiro-me àquele modelo simples, usado diariamente na cozinha, que peguei para lavar a louça do nosso almoço — numa tarde qualquer.
A peça é feita de tecido semi-impermeável, estampada com desenhos de abacates cortados ao meio, com os respectivos caroços expostos, em variados tons de verde. Na frente, há um bolso com os dizeres: “Tudo sob controle”.
Antes de ir à pia, coloquei o avental pelo pescoço. Na hora de amarrá-lo às costas, percebi que o comprimento das tiras e a circunferência abdominal não conversavam muito bem. Prendi a respiração, suguei a barriga e, em vez de dar um laço elegante, consegui apenas um nó cego.
Louças lavadas, pia enxuta — era hora de tirar a fantasia de dono-de-casa. Levei as mãos para trás, tentei desatar a laçada… nada. Parece que, ao liberar o ar dos pulmões, a barriga retomou seu espaço, esticando as tiras e arrochando o nó.
Não dava para tirar o avental pela cabeça. Também não dava para cortar as tiras com uma tesoura ou com as facas recém-lavadas.
Eu estava preso num nó górdio, amarrado por mim mesmo. E me vi girando no meio da cozinha, braços para trás, numa coreografia estranha — meio peru embriagado de véspera de Natal (nunca vi um, mas imagino), meio louco tentando escapar de uma camisa de força.
Depois de muito me debater de forma atabalhoada, tentei lembrar de alguma simpatia para desfazer nó cego. Só me veio uma, que naquela hora era impraticável: soprar sobre o nó.
Resolvi, então, recorrer à técnica, já que a magia me faltava.
Fechei os olhos e vasculhei a memória atrás das lições sobre “Nós e Amarras” — aprendidas aos 11 anos, quando entrei para o Escotismo. Ao mesmo tempo, invoquei mentalmente Penélope — esposa de Odisseu — que pode não ser a deusa da paciência, mas entende do assunto como ninguém.
Respirando fundo, fui tateando com calma, afrouxando pontas, empurrando em sentido contrário — e uma eternidade depois, desatei o nó e me livrei do abençoado avental.
Agora resta a dúvida: Será que foi um aviso de que preciso me dedicar mais às tarefas domésticas? Ou foi só um sinal de que o hospício está à minha espera?
Não sei.
[Crônica CLXIX/2025]

