
Uma mulher surgiu no meu quarto. Era uma bruxa? (Imagem gerada e editada por IA Designer/Monica/Photoroom com ajuda da BN JCarlos)
O barulho só começou a ficar perceptível quando o vizinho desligou a televisão — cujo som alto atravessava a parede comum das casas. Era um tec-tec-tec-tec interminável, lembrando o som de uma cerca elétrica mal isolada. Mas ali não havia cerca elétrica. Seria água gotejando do ar-condicionado? O aparelho estava desligado.
No início, não dei importância ao ruído insistente, que passou a servir como trilha sonora para minha leitura. Logo percebi que prestava mais atenção ao barulho do que às palavras. Então me levantei da cama para investigar a origem do “tec-tec”.
Afastei as cortinas do quarto e examinei a sacada pela porta de vidro. Não via nada. Acendi a luz externa e saí, enfrentando o vento frio da noite enluarada. Na varanda, nenhuma folha das suculentas ou da zamioculca estava fora de lugar. Olhei entre os vasos, à procura de uma improvável perereca ou grilo. Nada. Lá fora, o barulho havia desaparecido.
Fechei porta e cortinas, e fui direto ao banheiro. “Deixo a investigação para amanhã”, pensei. Era hora de dormir.
Foi só apagar a luz e me ajeitar na cama que o ruído voltou — agora mais alto e mais próximo. Sentei no escuro, peguei o celular e usei a lanterna para varrer os cantos: sob a cama, na cabeceira, atrás da mesinha. Nada.
Suspirei e me deitei de lado, buscando o sono. Mesmo de olhos fechados, notei uma luz no quarto. Eu tinha desligado a lanterna, disso tinha certeza. Abri lentamente os olhos. O quarto estava iluminado por uma claridade de tom azul-neón que emanava de algo atrás de mim.
Virei de um pulo. Na cortina estava pousada uma mariposa de tamanho médio, e era dali que surgia a luz azul. Olhei sem entender, sem saber como reagir. O cérebro foi preenchido com informações sobre bichos dotados de luminescência — mas mariposas não constavam na lista.
Resolvi buscar uma vassoura e acabar com aquela “fonte luminosa”. Eu precisava dormir, tinha compromissos cedo.
— Não se atreva a fazer isso!
Ouvi claramente uma voz feminina, cansada, mas firme.
Olhei novamente para a mariposa, e fui ofuscado pela luz azul, que se intensificou e formou um halo. Dali, surgiu a figura de uma mulher.
A presença inesperada me paralisou. A luz foi diminuindo, revelando as feições da visitante: vestia azul-claro com estampa branca em renda da cintura até os joelhos e na barra. Os braços estavam nus e flácidos. O vestido terminava pouco acima dos tornozelos, cobertos por uma botinha de couro de algum animal.
O rosto não seguia o estereótipo de bruxa: nada de queixo pontudo ou verruga cabeluda. Mas havia um nariz ligeiramente adunco, dentes maiores que a boca e olhos pretos que giravam dentro das órbitas — cada um em sentido contrário ao outro — como engrenagens vivas e desorientadoras.
Tentei encará-la, mas os olhos em rotação constante impediam qualquer concentração.
Ela apontou o dedo indicador — com unha comprida pintada de esmalte preto — e perguntou:
— Onde está a criança recém-nascida?
Minha voz não saiu. Movi a cabeça em negativa. Eu era solteiro e morava sozinho naquela quitinete. Ela entrou na casa errada, quem tem bebê são os vizinhos, mas não pensei nisso para ela não ler minha mente..
A mulher saiu de entre a cama e a cortina, começou a abrir gavetas e a lançar pente, creme de barba e desodorante longe, junto com o notebook. Abriu o guarda-roupa e, farejando como um cachorro, retirou tudo de lá e espalhou pelo chão.
Foi até a sala-cozinha. Ouvi cadeiras caindo, pratos quebrando, panelas rolando e talheres sendo despejados. Mentalmente, implorei a Deus que a síndica acordasse e viesse reclamar — ou, melhor ainda, que chamasse a polícia. Nunca desejei tanto que a polícia aparecesse.
Pouco depois, a mulher voltou. Olhou para mim — ou pelo menos virou o rosto em minha direção, já que os olhos não paravam — e disse:
— Não encontrei o que procurava, mas voltarei. E você vai se arrepender se não me entregar o bebê. Não pense em batizá-lo. Seu castigo será pior.
Encostou a unha pontuda na minha testa — e só acordei agora.
Abri os olhos com cautela. Fui me sentando devagar. O quarto estava intacto. Nada fora do lugar.
Exceto o volume sob as cobertas: era o livro que eu estava lendo, amassado e aberto na página em que o professor Franklin Cascaes descrevia como as bruxas da Ilha de Santa Catarina se metamorfoseavam em qualquer coisa para alcançar seus objetivos espúrios.
Por via das dúvidas, espalhei sal grosso pela casa e queimei palha de alho durante sete dias.
T’esconjuro, satanás!
[Crônica CXIII/2025]
