13 de julho de 2025

Tentativa bem mal-sucedida

Por José Carlos Sá

Acordou em um ambiente asséptico de um hospital (Imagem criada por IA Designer/Microsoft; edição Photoroom)

A vida não estava fácil.

Desempregado há mais de três anos, não conseguia nem biscates para garantir comida para ele e a mulher — e muito menos para pagar o aluguel. Voltou para a casa dos pais, submetido às humilhações dos irmãos e à convivência tensa com a mãe, que vivia às turras com a nora.

Mas havia algo de que ele não se queixava: sempre aparecia alguém disposto a pagar uma bebida ou dividir uma carreira de pó. O problema era que o organismo exigia doses cada vez maiores de álcool e opióides — e os “patrocinadores” começaram a rarear.

Foi então que teve a péssima ideia de roubar o celular da esposa para trocá-lo por droga. A mulher exigiu que recuperasse o aparelho. Para conseguir isso, ele vendeu alguns objetos de estimação da própria mãe — o que só intensificou o conflito entre a mulher e a sogra.

Os pais o chamaram e propuseram um ultimato: ele poderia continuar na casa deles sob uma condição — largar a bebida e as drogas, e mandar a esposa embora. Ele aceitou, sabendo que conseguiria abrir mão da mulher… mas não do vício.

Dois dias foi o máximo que suportou a abstinência. No terceiro, suando e com mal-estar generalizado, tentou sair para encontrar quem lhe fornecesse algo fiado. Descobriu então que estava trancado na edícula. As portas fechadas, janelas com grades e cadeado.

Ao meio-dia, tomou uma decisão. Trançou os lençóis da cama, fez uma corda — que a imprensa chama de “tereza” — amarrou no caibro do telhado, passou a outra ponta no pescoço e se lançou.

Acordou no hospital, entubado e com dor intensa. Sentia pressão nos ouvidos, a garganta em carne viva, o corpo latejando em ondas contínuas. Não conseguia mover nenhum membro — apenas os olhos, com campo de visão limitado. Via acima os aparelhos que o mantinham vivo e o suporte do soro ao lado da cama.

Voltou para casa algumas semanas depois, com orientação de repouso. Também não conseguia manter-se em pé ou andar sem apoio. A fala não voltara — o pescoço estava muito machucado, com uma marca escura que ele viu ao se olhar no espelho.

A mãe, ao lhe servir comida, xingou pela nova situação de dependência. E contou em detalhes o que viram ao encontrá-lo: pendurado na corda de lençóis, olhos saltados das órbitas, língua inchada, projetada para fora da boca, a cabeça pendendo para um lado — como se o pescoço tivesse partido.

Morreu três semanas depois. O atestado de óbito registrou: causas decorrentes da tentativa de auto-homicídio.

Durante o velório, ao receber abraços e pêsames, a mãe repetia: — Agora, descansaremos em paz!

[Crônica CXI/2025]

Tags

Alcoolismo Drogas suicídio 

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