Este livro chegou às minhas mãos por meio de uma campanha de financiamento coletivo para uma nova impressão. Não sei exatamente qual foi a palavra-chave na apresentação que me fisgou, mas o fato é que me engajei na causa — e valeu a pena.
A obra do escritor inglês Ambrose Bierce (1842 – desaparecido misteriosamente em 1914) reúne 34 contos que têm a “surpresa” como elemento comum. Todos foram publicados originalmente em revistas e jornais norte-americanos, país onde Bierce viveu e atuou como voluntário no exército da União durante a Guerra da Secessão (1861–1865), entre outras ocupações.
Vários contos são ambientados nesse contexto de guerra e tratam de execuções ou atos de coragem que, no fundo, nascem da insensatez. Destaco o conto “Um Cavaleiro no Céu”, em que um jovem se alista num regimento da União que havia chegado a uma localidade do território inimigo. Ao comunicar a decisão ao pai, ouve como resposta: faça o que quiser, mas será considerado um traidor.
Dias depois, de sentinela num desfiladeiro, o soldado atira e mata um oficial confederado — que, ao se aproximar do corpo, descobre ser o próprio pai.
Óleos de Cães e Bebês
Outro conto marcante é “O Homem e a Serpente”, construído em torno de uma frase atribuída ao livro Maravilhas da Ciência: “(…) os olhos da serpente têm propriedade magnética, de forma que quem cai em seu encanto é impelido à frente a despeito de sua vontade, e morre miseravelmente pela mordida da criatura.”
Por seis páginas e meia, o personagem Harker Brayton debate-se entre o ceticismo e o fascínio por dois olhos brilhando sob a cama. Uma serpente, com certeza. O desfecho é surpreendente — e cruel.
Em “Meu Assassinato Favorito”, o protagonista está sendo julgado pelo assassinato da própria mãe, “em circunstâncias de atrocidade ímpar”, que o levariam à pena de morte. Mas seu advogado convence o juiz a considerar a absolvição, caso o homicídio anterior cometido pelo réu fosse ainda mais bárbaro.
Resumo da ópera: após desentendimento com o tio, o réu o agride com uma coronhada, corta-lhe os tendões para impedir a fuga, enfia-o numa saca de trigo e pendura o pacote num galho. Depois, solta um bode conhecido por atacar tudo o que se move. O homem, preso e se debatendo, atrai a fúria do animal — e morre a marradas.
Outro conto, narrado em primeira pessoa, é igualmente perturbador: o pai do narrador fabricava um óleo “milagroso” a partir do cozimento de cachorros. A mãe, por sua vez, mantinha um pequeno negócio — ao lado da igreja da aldeia — de “resolver” o problema de bebês indesejados.
Um dia, por acidente, os dois empreendimentos se misturam. O óleo passa a ser feito com os corpos dos bebês. No fim, o narrador provoca uma briga entre os pais, e ambos acabam morrendo… na caldeira onde se fazia o tal óleo.
Apesar de destacar aqui os contos mais escabrosos, o livro é bom — e eu recomendo.
SERVIÇO:
Contos Estranhos
Ambrose Bierce
Cartola Editora (https://www.instagram.com/cartolaeditora/)
2021, São Paulo
[Resenha XV/2025]


