06 de julho de 2025

O fiscal e o relâmpago

Por José Carlos Sá

Um raio partiu a castanheira que foi poupada da motosserra (Imagem criada do IA Copilot/Microsoft / Edição BN JCarlos)

As leis ambientais proíbem o corte de várias espécies de árvores, seja por estarem em risco de extinção, seja por causa do tamanho, da beleza ou da raridade. Também são protegidas aquelas que, por conta de tradições, estão associadas a espíritos, proteção ou outros elementos do folclore. Podem ser consideradas sagradas, guardiãs ou portadoras de má sorte, caso alguém ouse cortá-las.

Na Amazônia — onde se passa o causo que vou contar — são especialmente proibidos os cortes de mogno, seringueira e castanheira. Tanto a seringueira quanto a castanheira estão intimamente ligadas à história de ocupação da região e à sobrevivência das populações extrativistas até hoje.

Com a expansão das áreas para pasto, é comum ver castanheiras solitárias em meio a quilômetros de vegetação rasteira — ou de total ausência de vegetação — como sentinelas inúteis, já que não há mais floresta a ser vigiada.

Uma dessas castanheiras, poupada da devastação em nome do cumprimento da lei, destacava-se solitária no pátio de uma madeireira às margens da BR-364, em Rondônia. Ironicamente, a árvore virou símbolo da empresa, passando a integrar sua logomarca como um emblema — paradoxal — do “compromisso” ambiental do proprietário.

Com o tempo, tornou-se uma ameaça à segurança dos trabalhadores. Em dias de ventania, a velha castanheira balançava de forma inquietante, enquanto se preparava para tombar sobre o galpão que abrigava o escritório da madeireira e parte das máquinas.

O dono da empresa pediu autorização para cortar, alegando risco iminente. Um técnico do órgão ambiental foi ao local e concluiu que, por estar viva e saudável, a árvore não oferecia perigo real e indeferiu o pedido.

O fiscal ainda alertou: se o requerente tentasse apressar a morte da árvore — com veneno, por exemplo — estaria sujeito a uma multa exemplar.

Como se fosse para provar que destino tem senso de humor, poucos dias depois, uma tempestade caiu sobre a região. Um raio atingiu em cheio a castanheira, rachando-a ao meio — cada banda despencou para um lado, sem atingir ninguém, mas passando a centímetros do galpão principal e da casa do gerador de energia.

A notícia chegou ao fiscal, que retornou ao local e, desconfiando da “coincidência natural”, aplicou uma multa que o suposto infrator considerou injusta e impagável.

Para tentar provar a inocência, o empresário teve que contratar uma empresa estrangeira especializada em perícias. Só assim consegui confirmar que fora mesmo um raio — e não veneno — que partiu a árvore que ele queria derrubar.

Como já escrevi antes: uma ironia do destino.

[Crônica CVII/2025]

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BR-364 Castanheira Copilot Microsoft Meio Ambiente Rondônia 

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