28 de junho de 2025

Eldorado, Edição Imaginada – A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

Retrato do bandeirante Antônio Raposo Tavares, de autor desconhecido (Reprodução)

O livro chama-se Raposo Tavares — O Último Bandeirante (Editora Planeta, São Paulo, 2015) e trata da última expedição que o paulista empreendeu — e que lhe custou a saúde física e mental, além da vida de centenas de pessoas que compunham a “entrada”, já que se tratava de uma campanha oficial.

Comprei a obra em Curitiba, numa experiência nova para mim: uma livraria pegue-e-pague. A capa me atraiu e comecei a leitura naquele mesmo dia, mas só terminei ontem, com muitas pausas e a leitura de dois outros livros nesse intervalo. A marcha lenta na apreciação deveu-se, também, ao conteúdo — que não atendeu à minha expectativa.

A capa que me fisgou (Reprodução)

Sabia muito pouco sobre Raposo Tavares. Conheci o personagem ainda no Curso Primário, junto a outros bandeirantes, especialmente os que exploraram as Minas Gerais, como Borba Gato, Fernão Dias Paes Leme e Bartolomeu Bueno da Silva — a quem os índios chamavam de Anhanguera, por ter colocado fogo numa cuia contendo… aguardente.

Mas o que realmente me levou a comprar o livro foi a esperança de conhecer os detalhes da viagem que ele fez pelo interior do Brasil inexplorado, até alcançar o rio Madeira. Meu interesse era esse.

Ficção

Logo no início da leitura percebi que se tratava de uma ficção histórica — algo que só fica claro no final, na “Nota do Autor”, onde Pedro Pinto revela ter se baseado em um fato histórico mal documentado e preenchido as lacunas com sua imaginação.

O fato é que, depois de aprisionar centenas de indígenas — especialmente do povo Guarani que vivia nas reduções dos jesuítas em terras espanholas, hoje Paraguai e Argentina — Raposo Tavares foi chamado a Portugal, onde recebeu uma missão secreta que o conduziu ao norte do país.

Itinerário percorrido pela Entrada de Raposo Tavares em busca do Eldorado (Reprodução de ilustração do livro / Foto JCarlos)

Saiu de São Paulo, subiu o rio Tietê, passou pelos rios Itatim e Paraguai até as nascentes. De lá, embrenhou-se pelo altiplano e chegou ao Peru. Depois, desceu pelos rios Guaporé, Mamoré e Madeira, alcançou o Amazonas e subiu o Solimões até Quito (hoje, Equador), retornando até o Pará e, de lá, por mar, enfim retornando ao ponto de partida.

Foram mais de dez mil quilômetros percorridos, que ajudaram a delimitar o contorno oeste do Brasil — que, à época (de 1648 a 1651), limitava-se basicamente ao litoral e algumas léguas para o interior, teoricamente regidas pelo Tratado de Tordesilhas, que ninguém respeitava.

Mas não encontraram o sonhado Eldorado, cantado e decantado desde que os europeus puseram os pés deste lado do oceano. A lenda dizia que havia — ou há — um lugar onde o rei era coberto de ouro em pó e, ao se lavar, esse dourado se depositava no fundo de um lago. Nesse lugar havia ouro e esmeraldas em profusão, diziam… E os exploradores enfrentaram tribos hostis, serpentes venenosas, onças famintas — quando não eram derrotados pelos mosquitos transmissores das maleitas.

Voltando ao livro: me senti enganado. Infringi aquela máxima de que não se julga um livro pela capa.

Aprendeu, Zé?

[Resenha XIII/2025]