Comecei a ouvir A Voz do Brasil ainda menino, nas casas dos avós, que esperavam pontualmente o prefixo com a protofonia da ópera O Guarani e o locutor anunciar, solene: > “Em Brasília, dezenove horas.”
Na casa dos avós paternos, o programa era ouvido por falta de opção. Já na casa dos maternos, seu Benedito escutava com esperança de uma boa notícia — algo como “os aposentados vão ganhar aumento”. Coitado. Nunca ouviu essa esperada informação.
Passei a escutar o programa oficial — o “chapa branca” — por obrigação. Quando trabalhei na Rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, era tarefa: ouvir um noticiário da BBC, em português, e A Voz do Brasil para tirar notas para o jornal.
Com o tempo, me acostumei. De vez em quando, até por vontade própria, ouvia o programa e encontrava temas para crônicas e notas na antiga coluna Banzeiros, que publiquei em vários sites de Porto Velho. Foi ali que descobri sobre uma mina de nióbio em Rondônia — que depois nunca mais foi mencionada.
Às vezes ouço por pura inércia. Por preguiça de mudar de estação.
Atualmente escuto bastante a Rádio Senado, que tem uma programação só com música brasileira. Na última terça-feira, fui a uma reunião com nosso carro e, ao ligar o rádio, estava sendo transmitida uma sessão do Senado Federal. Troquei de estação e fui ouvindo música.
Mas quando saí do compromisso, pouco depois das 21h, a Rádio Senado ainda transmitia a sessão. Comecei a procurar outra emissora. E parecia brincadeira: a maioria delas estava irradiando A Voz do Brasil. A transmissão é obrigatória — a emissora pode apenas escolher o horário.
Encontrei uma rádio tocando sertanejo universitário e pensei: “Se só tem tu, vai tu mesmo.” Mas, logo após a música, entrou o inconfundível “programa do governo”. Girei o dial… e a mesma coisa nas outras emissoras.
Cheguei em casa, tomei banho, peguei meu livro e fui para a cama. A mão, automaticamente, procurou o radinho de cabeceira, que está sempre sintonizado na Rádio Senado. Parece mentira, mas assim que liguei, ouvi a introdução da ópera O Guarani, de Carlos Gomes — o indefectível prefixo de A Voz do Brasil:
“Pam, pararam. Pam, pararam. Pam, pam, pam, pam, pam, pam, pam, pam, paaam, paaam…”
Desisti. Desliguei o rádio, fechei o livro, apaguei a luz e fui dormir.
[Crônica CIII/2025]

