
O medo de uma guerra atômica vem de infância (Imagens gerada por IA Freepik_Picaso e Copilot_Microsoft; Edição Photoroom e BN JCarlos)
“Quanto mais você se informa, mais a angústia cresce. (…) Diariamente, somos bombardeados por uma série de informações que, em vez de nos tranquilizar, nos oprimem. É o medo dos raios ultravioleta do sol, por conta do enfraquecimento da camada de ozônio; é a possibilidade da falta do álcool combustível; é a importação do fatal metanol; é o medo da AIDS; o medo da guerra nuclear; é a recessão, a hiperinflação, o salário que pode atrasar; é a crença mantida de que o diabo existe e a salvação será para poucos etc. (…)”
Esse é um trecho de uma crônica que publiquei no dia 23 de janeiro de 1990, no jornal O Guaporé, de Porto Velho (RO), relacionando os temores que me rondavam àquela época. Lembrei desse velho texto ontem, ao ler uma frase atribuída ao líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, no contexto da guerra que aquele país trava contra Israel — e da possibilidade de os Estados Unidos entrarem na briga ao lado dos israelenses.
Disse Khamenei: “A entrada dos EUA nesta questão [guerra] é 100% em seu próprio prejuízo. O dano que sofrerá será muito maior do que qualquer dano que o Irã possa enfrentar.”
Ou, como a imprensa internacional traduziu: “danos irreparáveis”.
Trump, com sua costumeira arrogância, aceitou a provocação com um seco: “Boa sorte.”
A troca de ameaças entre os brigões despertou em mim uma antiga — embora nunca inteiramente adormecida — doença: a nucleofobia. Um diagnóstico caseiro, que me acompanha desde a infância: o medo de uma guerra nuclear.
Os sintomas começaram lá pelos anos 1960, quando, já alfabetizado, eu acompanhava — com minha limitada compreensão infantil — toda a tensão da Guerra Fria. Mesmo sem bombas caindo, sentíamos os reflexos aqui no Terceiro Mundo, onde sempre fomos, digamos, bucha de canhão na disputa entre capitalistas e os ditos comunistas.
Uma guerra atômica esteve prestes a acontecer em mais de uma ocasião. E eu, menino, calculava quanto tempo a radiação demoraria a chegar onde eu estava.
Hoje, confesso, é tudo ainda mais angustiante do que há sessenta anos.
Naquela época, as notícias demoravam. Hoje, se você quiser, pode assistir às batalhas em tempo real, como se fosse um espetáculo. E isso torna a ideia de todos virarmos cinza uma possibilidade não tão remota quanto alguns preferem imaginar.
E haja maracugina.
[Crônica C/2025]
