A rivalidade entre os jovens da Rua de Baixo e os da Rua do Meio era tão antiga que nem os moradores mais matusalênicos sabiam como começou. O atrito era muito sério que as turmas se evitavam. Mas, se o encontro era inevitável, o confronto era certo — com troca de ofensas, bordoadas e o que mais viesse.
O absurdo da coisa chegava ao ponto de que moças e rapazes sabiam que namorar alguém da rua “oposta” era proibido.
Se, numa festa de outra região da cidade, surgisse um flerte, a pergunta mais importante que “qual seu nome?” era “onde você mora?”. Se a resposta revelasse um “baixense” ou um “meiense”, o encanto morria ali mesmo.
Pessoas de outros bairros? Sem problema. Mas entre eles, o veto era mútuo.
Um morador da Rua de Baixo que, desavisado, adentrasse a Rua do Meio de cabeça baixa, olhando o celular, podia se preparar: seria exemplarmente espancado. E mesmo na presença de testemunhas, ninguém se metia — talvez por costume, talvez por medo, ou talvez por pura descrença no sentido daquilo tudo.
Termos de Ajuste de Conduta e de Boa Vizinhança foram assinados às dezenas. Funcionavam apenas na sala do delegado. Do lado de fora, tudo voltava ao normal.
Tudo pode piorar
Os únicos espaços considerados “neutros” eram as escolas e a paróquia. Lá dentro, baixenses e meienses conviviam em uma trégua silenciosa. Mas bastava ultrapassar o portão para a guerra recomeçar.
Na noite de um sábado qualquer, na turma da EJA (Educação de Jovens e Adultos), Uóchito Silva, da Rua de Baixo, ouviu os colegas Fernando e Evangelino combinando de ir ao Bar do Alfeu, numa rua neutra.
Uóchito guardava mágoa antiga de Evangelino. Tudo por causa de uma disputa infantil por uma pipa. Evangelino não apenas ficou com o papagaio, como distribuiu socos que mandaram Uóchito direto para a UPA, com dois pontos na bochecha e um orgulho ferido.
Assim que a sineta marcou o fim da aula, Uóchito foi até a casa, deixou a bicicleta e os livros, colocou uma faca sob a camisa e partiu para o bar onde os dois estariam. Antes de entrar, escondeu a arma em uma lixeira.
Lá dentro, encontrou dois conterrâneos da Rua de Baixo e confidenciou o plano: eles provocariam Fernando e Evangelino até que a briga saísse para a rua. Três contra dois — e uma faca escondida. Estavam em vantagem.
Um esbarrão “casual” em Fernando foi o gatilho. O dono do bar interveio e expulsou os três da Rua de Baixo, depois de cobrar a conta. Mas eles não foram embora. Sentaram-se no outro lado da rua e esperaram.
Quando o bar enfim fechou e os últimos clientes saíram, junto com Fernando e Evangelino, Uóchito avançou, exaltado. Evangelino respondeu com um empurrão que o jogou sentado no asfalto, sob risadas de quem assistia.
Humilhado, Uóchito correu até a lixeira, pegou a faca e avançou pelas costas do rival. Alguém gritou “deixa disso!”, e Evangelino se virou a tempo de escapar da facada. Os dois se atracaram. Rolaram pela rua. Ninguém interferiu.
Minutos depois, chegou a polícia. Era tarde. Uóchito estava morto. Três facadas.
No velório, entre choros e acusações, a chama da rivalidade reacendeu. Outras mortes podem vir. E a história triste da Rua de Baixo e da Rua do Meio parece longe de acabar.
[Crônica XCVII/2025, inspirada em um triste episódio ocorrido na semana passada em Braga, no norte de Portugal, por motivos fúteis]

