
Ladrão usando um canudinho para empurrar a chave e entrar na casa (Imagem gerada por IA Canva e editada por BN JCarlos)
Somente há pouco tempo é que tomei consciência de um hábito que tenho: ao verificar se as portas de casa estão fechadas à noite, retiro a chave da fechadura e a penduro no porta-chaves. Acredito que o faço para ter uma sensação de segurança. A Marcela também tem esse costume e o passou ao João Pedro, que não liga muito para a tradição e deixa a chave na porta.
Antes de mergulhar no meu id e fazer uma regressão para identificar a origem da mania, fui pesquisar no Google investigar: afinal, deve-se ou não tirar a chave da fechadura? A primeira surpresa foi encontrar uma imensa quantidade de links sobre o tema. A segunda, ainda maior, foi ver que havia argumentos razoáveis tanto a favor quanto contra a prática.
A versão digital da revista Exame publicou uma matéria em que dizem ter ouvido “especialistas”, mas não informam especialistas em quê nem o nome deles, que condenam a prática de deixar a chave na fechadura: “(…) essa prática pode ser mais arriscada do que parece. Em vez de proteger, ela pode facilitar a ação de criminosos. Além de acelerar o desgaste do mecanismo da fechadura, essa atitude pode dificultar o resgate em emergências, como incêndios, já que a chave pode atrapalhar a abertura rápida da porta”.
Em sentido contrário, uma reportagem do jornal A Tribuna de Minas alerta: “Nunca deixe as chaves na fechadura quando for dormir”. A matéria foi assinada pelo repórter Jeferson Rosa e publicada em abril deste ano. O argumento principal é que “Especialistas em segurança residencial alertam que, ao contrário do senso comum, essa atitude pode facilitar a ação de criminosos e comprometer a resposta em situações emergenciais”.
Notaram alguma convergência entre os dois argumentos? Pois é.
E o meu capricho, de onde vem?
Não precisei pensar muito. Lembrei de um ensinamento passado a mim e aos meus irmãos por nossos pais:
Pai ou mãe contaram que o ladrão enfiava uma chave de fenda na fechadura e empurrava a chave para o chão. Antes disso, passava sob a porta uma toalha ou tecido mais grosso, para abafar o som da queda.
Aí o gatuno puxava o tecido para fora, “pescando” a chave, entrava na casa e fazia a limpeza. O restante da história é que dava calafrios: diziam que, se alguém acordasse durante o arrombamento, o ladrão soprava uma fumacinha que fazia a pessoa desmaiar na hora. E aí, só Deus na causa.
Na minha inocência infantil, imaginava que, em vez de uma chave de fenda, o ladrão usaria um canudinho de refrigerante no buraco da fechadura. Não sei se funcionaria, mas essa era a minha modesta contribuição à lenda.
[Crônica XCVI/2025]
