
A coisa vinha vindo em minha direção e eu estava apavorado (Colagem de desenhos de IA Designer, Fotor, Photoroom e BN JCarlos)
Eu fui a uma reza no sítio do seu Arruda. Após a ladainha fiquei conversando, bebendo uma pinguinha e quando dei fé, meus companheiros já tinham ido embora. Me despedi recusando a oferta de pousar lá. Peguei a estrada só eu e Deus.
A noite estava escura, com as nuvens cobrindo a lua, e repleta de sons de animais e pássaros noturnos. Sem lanterna, eu caminhava pela trilha dos carros de boi, guiado mais pela intuição do que pela visão — praticamente não enxergava nada.
Depois de cruzar a segunda cancela, calculei que já devia ser perto da meia-noite. Foi quando o silêncio tomou conta da estrada. Um silêncio profundo e inesperado.
Tentei não pensar nisso, para que o medo não dominasse minha imaginação fértil.
De repente vi uma luz distante. O que poderia ser? Entre o sítio do seu Arruda e a fazenda do velho Acelino, não havia casa alguma — apenas quatro quilômetros de caminho deserto.
Continuei andando, sem tirar os olhos da luz, que parecia bruxulear. Seria uma lâmpada tremendo ao vento? Mas… não havia vento. Talvez alguém segurando um lampião, procurando uma rês perdida? Minha mente se enchia de hipóteses, cada uma mais estranha que a outra.
O que era certo era que eu me aproximava da luz — e ela de mim.
Em um lugar do caminho onde há uma ligeira elevação, a luz sumiu. Parei, tentando entender se aquilo tinha sido uma ilusão criada pela minha mente. Saí do caminho para fazer xixi num mourão da cerca e estava concentrado nessa atividade quando, de relance, olhei para o lado e vi a criatura vindo em minha direção.
Ela chegara ao cume do morro e eu via o recorte de sua silhueta contra o céu escuro.
Era uma coisa alta e comprida, que parecia flutuar sobre a estrada. No topo daquilo que imaginei ser a cabeça, um único olho brilhava. Seria o “boitatá”?
Meu corpo congelou. Fiquei paralisado, colado à cerca de arame farpado, enquanto a criatura se aproximava, soltando um chiado metálico, um som indefinível.
Senti as pontas do arame cravando na pele, mas não conseguia me mover.
O pior estava prestes a acontecer, quando ouvi, do nada, uma voz humana: “Noitchi! Deus seja louvado!”
O som me sacudiu. Balbuciei alguma coisa e então entendi: A criatura era um homem, todo vestido de preto, montado em uma bicicleta, levando uma lanterna amarrada na cabeça para iluminar o caminho.
Por via das dúvidas, nunca mais voltei ao sítio do seu Arruda à noite. Agora, só durante o dia — e com garantia de companhia para a volta.
[Crônica XCI/2025]
