02 de junho de 2025

Fraude no INSS: entregando o ouro ao bandido

Por José Carlos Sá

A apuração da fraude no INSS se aproxima do Congresso Nacional (Desenho J. Bosco/O Liberal – Belém – PA)

Precisou um escândalo abalar a República para que o assunto saísse das conversas informais em mesas de dominó e ocupasse as manchetes dos principais veículos de comunicação do país.

Estou falando da fraude no INSS, revelada ao público em abril passado, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Sem Desconto, resultando na prisão de algumas pessoas e na queda do (omisso) ministro da Previdência, Carlos Lupi, presidente do PDT.

A cada dia, novos detalhes da trama são revelados. O esquema, que movimentou uma quantia ainda não totalmente conhecida, já é estimado em mais de R$6 bilhões.

O golpe consistia em realizar descontos indevidos nos pagamentos dos aposentados, desviando valores para associações sindicais, algumas criadas exclusivamente para essa finalidade.

Mas esse não é o único golpe contra os idosos que dependem da aposentadoria. Outros dois métodos muito comuns são os empréstimos consignados e os serviços de escritórios de advocacia “especialistas” em processar a Previdência para aumentar benefícios

Aliás, já tentaram me fisgar nessas duas armadilhas.

“Eficiência” no assédio

Quando minha aposentadoria foi aprovada, fui chamado para assinar a papelada na agência bancária determinada pelo INSS.

Menos de vinte minutos depois, antes mesmo de chegar em casa, já havia recebido seis ofertas de empréstimos consignados pelo WhatsApp. Desses empréstimos em que as parcelas são descontadas antes de você ver o holerite.

Nestes quase seis anos como aposentado, é raro passar uma semana sem receber ofertas de crédito ou serviços advocatícios — todos, é claro, supostamente destinados a “melhorar” meu benefício.

A última investida chegou na minha caixa de e-mail, por meio de uma carta mal redigida, na qual um advogado de outro estado alegava que o INSS estava me pagando menos do que devia e se oferecia para resgatar a diferença.

Respondi agradecendo e fiquei pensando: Isso é golpe ou realmente minha aposentadoria está errada? E, se estiver errada… como eles sabem e eu não?

Hoje, a CNN Brasil esclareceu muitas dessas dúvidas. O repórter Pedro Duran publicou uma reportagem expondo uma empresa que vende listas de aposentados para que escritórios de advocacia ofereçam serviços.

Essas listas contêm nome completo, CPF, data de nascimento, endereço completo, nome da mãe, valor da aposentadoria, telefones e e-mails. E mais: as listas têm até 46 colunas de dados, incluindo informações restritas do sistema do INSS e Dataprev, como: Data de início do benefício, margem disponível para novos empréstimos consignados e total de contratos de empréstimos ativos.

O esquema comercializa uma lista de 500 nomes por R$150,00; já um banco de 10 mil nomes sai por R$450,00 — um valor irrisório para um futuro golpista. A reportagem ouviu um advogado especialista em Previdência, ele também é assediado com ofertas dessas listas revelando que a fraude dos descontos é apenas “a ponta do iceberg” de um INSS vulnerável, com um sistema de segurança crítico.

E agora, quem poderá nos defender?

A resposta, pelo visto, nem o Chapolin Colorado pode dar. Enquanto escrevia esta crônica, vi que o escândalo já chegou ao Congresso Nacional. Pelo menos 15 políticos, entre senadores e deputados — de partidos à direita e à esquerda — recebiam mesadas das associações que aplicavam os descontos indevidos.

[Crônica XC/2025]

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