
Com o amigo Tinoco, no período inicial da nossa carreira na Aeronáutica, em 1975. É a única foto que tenho daquela época (Fotografo desconhecido)
Dias atrás, um colega chegou ao nosso local de reunião, parou na porta e, tomado pelo saudosismo dos tempos de quartel, assumiu posição de sentido, fez continência e, dirigindo-se a mim — também ex-militar — declarou: “Permissão para entrar no recinto!”
Permanecendo firme no batente da porta, aguardava minha resposta. Entrei na brincadeira e retruquei: “Permissão concedida”.
Ele riu e comentou: “Estou vendo que você também é do ramo”. Ambos servimos à Pátria. Ele, no Exército; eu, na Aeronáutica. O episódio trouxe à tona algumas lembranças do período em que fui militar.
Nos primeiros dias de instrução, aprendemos os fundamentos da hierarquia e os sinais de respeito. A continência, por exemplo, segue uma norma rigorosa para ser executada perante superiores, pares, subordinados e símbolos militares. Ainda lembro de uma das lições que explicava que a continência se divide em três partes: atitude, gesto e duração.
Certa vez, após essas lições iniciais, estávamos sentados na calçada de um prédio, aguardando a próxima instrução, quando surgiu repentinamente nosso monitor, o cabo Espírito Santo. Num instante, saltamos de pé, em posição de sentido.
Ele respondeu ao gesto com uma continência e foi embora, virando a esquina. Mal havíamos nos sentado e ele voltou. Pulamos novamente como bonequinhos de mola.
O cabo repetiu a brincadeira mais uma vez. A partir daí, ninguém se atreveu a se sentar e a graça terminou.
Outra lembrança que me vem à mente ocorreu numa manhã quente, enquanto eu subia a ladeira entre o Portão das Armas e o prédio do Comando da Base Aérea de Belo Horizonte.
O sol castigava e, pouco antes de cruzar caminho com um oficial que seguia na direção oposta, retirei a cobertura (o bico-de-pato) para enxugar o suor.
Recoloquei o boné a tempo de fazer a continência ao superior, que, rindo, respondeu: — Pensei que você ia fazer a “continência americana”. Eu parei, sem entender, e ele explicou: “Os militares americanos fazem continência descobertos”. Só consegui dizer: “Ah!”.
Um comando memorável
Ainda sobre comportamento militar, recordo outro episódio também protagonizado pelo cabo Espírito Santo.
Um recruta pediu permissão para falar com o superior, solicitando uma dispensa por algum motivo qualquer. O cabo prometeu verificar e dar uma resposta.
Menos de cinco minutos depois, o soldado voltou para saber se seu pedido tinha sido atendido. O cabo respondeu que o assunto ainda não havia sido encaminhado à Sargenteação, órgão responsável pela administração do dia a dia da tropa.
O recruta devia estar realmente necessitado da dispensa, pois voltou em poucos instantes para buscar uma resposta.
Foi então que o cabo Espírito Santo, já aborrecido, proferiu uma ordem que entrou para o folclore da Base Aérea:
— Fulano, sentido! Meia-volta, volver! Em direção ao infinito, ordinário, marche!
O soldado deu alguns passos e só então compreendeu a ordem. Abaixou a cabeça e foi embora, desistindo da folga.
[Crônica LXXXIX/2025]
