
As ilustrações foram sugeridas por IAs de diferentes fornecedores. Diz-que é alguém chutando uma bola para o espaço (Ilustras IA Designer/Canva/Artguru Edição Photoroom/Fotor/Pikwish/ Finalização BN JCarlos)
Na quinta-feira, 8/5, foi depositado em minha conta o valor da reparação material que solicitei por ter esquecido um celular em um carro do aplicativo 99 e o motorista ter se apoderado do aparelho. A empresa, sem esforço algum, limitou-se a fornecer números de telefone para que eu entrasse em contato com o motorista, que simplesmente ignorava as ligações. A 99 lavou as mãos.
Para encurtar o enredo de uma novela que se arrastou por quase dois anos—mais precisamente 23,1 meses, ou ainda 703 dias—vou direto ao assunto, embora tenha vontade de narrar cada detalhe desse aborrecimento.
Liguei para o motorista, para a 99, enviei e-mails para a ouvidoria da empresa. Nada resolvido. Registrei um B.O. na delegacia virtual e depois reforcei a denúncia na 1ª Delegacia da Polícia Civil, em São José.
Apelei para o Procon, relatei o fato e, um mês depois, fui chamado para uma “Audiência Conciliatória”, que “não logrou acordo”. O conciliador do Procon afirmou que o papel do órgão terminava ali e que, para dar continuidade à ação de reparação (já que eu pedia um celular igual ao “perdido”), eu teria que entrar na Justiça. Ele até forneceu uma lista de faculdades de direito cujos estagiários oferecem orientação a pessoas sem condições de contratar um advogado.
Enquanto o conciliador redigia o termo da audiência, o advogado da outra parte me aconselhou a desistir. Segundo ele, a 99 nunca havia perdido um processo parecido—de usuários que “esquecem” objetos no carro.
Eu corrigi: não esqueci, o telefone caiu do meu bolso e o motorista se apoderou dele. A 99 é responsável pelos motoristas, certo? Ele riu, como quem diz: “Não diga que não avisei.”
Saí dali humilhado e fui buscar ajuda nos escritórios jurídicos das faculdades. Era julho, e a agenda dos estagiários estava lotada até novembro. As vozes da minha cabeça—que às vezes ouço e obedeço—me sugeriram o Juizado de Pequenas Causas. Liguei para o fórum e recebi dois links: um com o passo a passo para apresentar a petição, outro com o formulário da solicitação, um pequeno calhamaço de nove páginas que deveria ser criteriosamente preenchido e enviado com os documentos que eu julgasse necessários.
Tudo feito e enviado, passei a acompanhar o andamento do pedido, sem pressa, porque minha intenção era apenas irritar a 99 e seus prepostos.
Fui intimado para uma tele audiência de conciliação. O advogado e um representante da 99 (que não abriu a boca) pediram que o processo seguisse direto para sentença, pois não tinham nada a acrescentar. Perguntei se podia falar e fui autorizado.
Contei tudo novamente: o motorista que ignorava as ligações, a 99 que se omitiu, o prejuízo que tive—pois, junto com o celular, perdi entrevistas e fotos da minha pesquisa sobre o aqueduto de São Miguel, símbolo de Biguaçu. A audiência foi encerrada, e fiquei aguardando.
Então, um dia de março, recebi um e-mail de um escritório de advocacia com uma “proposta de acordo”. Li tudo duas vezes e pensei com os cordões da minha bermuda: “Uai? Acordo? Mas eles não disseram que eu não tinha chance?” Fui ao site do fórum, consultei o andamento do processo e lá estava a sentença do juiz, determinando que a empresa me pagasse. Havia, como é de praxe, prazos para recursos.
Sabendo da decisão, os espertos ofereceram, como “mera liberalidade”, a quantia de R$1.100,00. Recusei e disse que esperaria a sentença definitiva. Mandaram outro e-mail lamentando minha decisão: “É com pesar que reportaremos à companhia que as tratativas foram encerradas”, mas deixaram uma brecha caso eu mudasse de ideia. Não mudei.
Esperei os prazos e o dinheiro não apareceu. Segui a orientação do cartório e entrei com nova petição, de “cumprimento de sentença”. O processo tramitou lentamente, até que fui comunicado que o dinheiro estava na conta (na verdade, o banco avisou antes do cartório).
Assim, considero que a humilhação que sofri—foi como me senti—lá no Procon, está vingada. O dinheiro recebido, mesmo com correção, não dá para comprar um celular idêntico ao que foi furtado, mas minha honra está lavada.
Para encerrar, pensei em usar um daqueles chavões para falar do fraco contra o forte: “Davi e Golias”, “o elefante e a formiguinha”, “os gregos e os persas em Maratona”, ou os bárbaros derrotando as legiões romanas na Floresta de Teutoburgo (não, não estou falando de Asterix e seus conterrâneos gauleses), ou ainda a história de Karatê Kid. Nenhum desses me serviu.
Então fico com uma expressão porto-velhense:
— Toma, leso! Pega, abestado!
[Crônica LXXIX/2025]
