
Só tenho estes dois retratos de pai. O da esquerda, quando tinha 20 anos e o outro – pintado à mão, já tinha mais de 40 (Acervo Fátima Aparecida de Sá)
Se estivesse vivo, meu pai estaria completando hoje, 20 de março, 91 anos. Mas infelizmente ele morreu há vinte anos, vítima de um câncer no pulmão, em um hospital de Divinópolis (MG), só e desassistido pela esposa dele.
A última vez que o vi pessoalmente foi em um Dia dos Pais, logo no início da década de 1980, quando anunciou o fim do casamento com minha mãe. Depois disso falei com ele por telefone três ou quatro vezes.
Na derradeira, liguei para parabenizá-lo pela conquista do Torneio Libertadores das Américas pelo Vasco da Gama, time pelo qual pai foi fanático. Ele não sabia da vitória. Explicou que o médico o havia proibido de qualquer emoção forte – positiva ou negativa. Perguntou como eu estava, se morava ainda em Rondônia e pelos meninos (meus filhos).
Há pouco soube de alguns detalhes da doença e morte de pai, pormenores que não se fala por telefone, já que moro longe, geograficamente, há quase 40 anos. A família só soube da morte algum tempo depois do sepultamento, que foi feito como indigente. Quando meus irmãos se organizaram para fazer o translado dos restos mortais para um cemitério onde estão sepultados outros parentes, já era tarde. Os ossos foram levados para um columbário comum e se perderam entre milhões de outros.
Pai nos criou com as rédeas curtas e sem muita concessão. Havia hora para ligar e desligar a televisão, regra que era seguida independentemente das presenças dele e de mãe. Tínhamos tarefas na “arrumação” da casa e minha irmã Cida ainda ficou responsável pelas duas irmãs menores, Lúcia e Rosa.
Agradecemos a pai a criação que tivemos e os valores que nos foram repassados e transmitimos aos nossos filhos e netos, como honestidade, respeito, responsabilidade.
Faço essa homenagem tardia, mas com muita gratidão.
[Crônica XLII/2025]
