Alice era fascinada por comidas naturais, hábito que adquiriu à medida que conhecia, pela imprensa, as vantagens de uma refeição saudável.
As substituições de alimento em casa tiveram a adesão dos filhos, mas o marido foi contra desde o primeiro momento. Ele não aceitou, por exemplo, substituir o café pelo chá ou por cevada. Era preciso fazer uma garrafa de café para ele e outra com a bebida alternativa para o restante da família. A mesma coisa relacionada com a eliminação do consumo de carnes. Sem acordo.
Mas Alice foi levando, apesar da não adesão do marido, a difusão entre os vizinhos, parentes e amigos, daquilo que ela acreditava ser o melhor para a saúde dela e de outras pessoas.
Numa leitura, ficou sabendo que se colocasse um pouquinho de bicarbonato de sódio no fundo dos cinzeiros iria acabar com aquele odor característico, que é deixado pelas pontas e pelas cinzas dos cigarros. Assim, dona Alice, que ficava incomodada com aquele (mau) cheiro, espalhou porções de bicarbonato pelos cinzeiros da casa e aguardou que surtisse efeito.
Mas o efeito foi colateral. É que o produto químico usado para evitar os “miasmas” deixados pelo cigarro é o mesmo usado nos extintores de incêndio, para apagar as chamas, pois o bicarbonato de sódio remove o oxigênio, impedindo a propagação do fogo.
Feitiço nas cinzas
Então, quando o marido da d. Alice colocava o cigarro aceso no cinzeiro, o produto que estava no fundo do recipiente fazia a brasa se apagar. No começo ele reacendia o cigarro, que se apagava de novo, até que notou um pó branco, que não era das cinzas.
– O que é isso que você colocou nos meus cinzeiros? É feitiço para eu parar de fumar ou para eu morrer? Perguntou à d. Alice.
– Que isso? Eu nunca faria uma coisa dessas com o pai dos meus filhos. Eu coloquei foi bicarbonato de sódio para tirar o mau cheiro dessa coisa aí, que você deixa.
– Que bicabornato, que nada, você é feiticeira, bruxa… Está querendo me matar, colocando veneno no meu cinzeiro… Ainda bem que eu vi.
Não adiantaram explicações nem juras. D. Alice teve que voltar a sentir o cheiro de borra de cigarro velho nos cinzeiros que ficavam na sala, no alpendre e até no banheiro.
Coitada.
[Crônica LXXXIV/2024]

